domingo, 13 de novembro de 2011

Como um relâmpago que rutila dum extremo do céu a outro, assim será em seu dia o Filho do Homem.

PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Texto dramático

Gladiston de Araújo



Baseado na Obra de

Plínio Pacheco



Pesquisa

O Nazareno - Sholen Asch

Bíblia Sagrada


Uma obra especialmente dedicada ao Grupo de Jovens JURI
Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Felisburgo

Felisburgo-MG, Quaresma de 2.011


CENA I

(ENTRADA E POSICIONAMENTO DOS ATORES)

JOÃO BATISTA: Derramai, ó céus, lá das alturas o vosso orvalho, e as nuvens façam chover o justo; abra-se a terra, e brote o Salvador e nasça a justiça. Arrependei-vos porque é chegado o Reino dos Céus. Eu sou a voz que clama no deserto: Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas. É chegada a hora e a hora é agora em que todos os olhos verão o Rei. Eis o tempo da graça!!! Todo vale será aterrado, toda montanha ou colina abaixadas, as vias sinuosas transformarão em retas, e os caminhos acidentados serão aplainados! E todo homem verá a salvação que vem de Deus! Ele abrirá a boca em parábolas; revelará coisas extraordinárias. Porém, vocês hão de ouvir, e nunca entenderão! Vocês hão de olhar e nunca enxergarão! Porque o coração deste povo é como pedra! Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Por que tampam os ouvidos e fecham os olhos? Por que fogem da luz? Voltem para a luz para que possam ver, escutar e entender com o coração, e se convertam, e sejam curados. E eu, em verdade vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas sandálias eu não sou digno de desatar; ele vos batizará com o Espírito Santo e os levará para a terra onde emana leite e mel.

(JESUS SE APROXIMA DE JOÃO SOLENEMENTE E SE AJOELHA PARA SER BATIZADO)

JOÃO BATISTA: Rabi, eu careço ser batizado por Ti, e vens tu a mim para ser batizado?

JESUS: Deixa por agora,  porque assim nos convém cumprir toda a justiça.

(JOÃO BATIZA JESUS E UMA POMBA É SOLTA)

VOZ DOS CÉUS: Este é o meu Filho muito amado, em que me comprazo.

JOÃO BATISTA: Eis o Cordeiro de Deus! Aquele que veio para tirar o pecado do mundo...

(JOÃO E JESUS SE ABRAÇAM LONGAMENTE. JOÃO SE AFASTA)

JESUS: O Espírito do Senhor repousa sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração, a pregar a liberdade aos cativos e restauração da vista aos cegos, a por em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano de graça do Senhor.

CENA II

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Jesus!

TODOS: Jesus de Nazaré!

PILATOS: Há quarenta dias ele ora!

JUDAS: Há quarenta dias ele jejua!

CAIFÁS: Deve ter fome...

TODOS: Dá-lhe de comer!

ANÁS: Se tu és o Filho de Deus, faça com que estas pedras transformem em pães.

TODOS: Anda, vai!!! Transforme as pedras em pães!

JESUS: Assim diz a Escritura Sagrada: não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.

BARRABÁS: Jesus!!! Vem cá!!!

FARISEU 01: Para aí...

FARISEU 02: Se tu és mesmo o Filho de Deus, lança-te daí para baixo, porque a mesma Escritura a que te referes, diz que Deus ordenará os teus anjos ao Teu respeito, e eles te tomarão nas mãos...

TODOS: para que não tropeces sequer numa pedra.

JESUS: Também está escrito, não tentarás o Senhor teu Deus.

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Olhe Jesus, eis o mundo lá. Resplandecente de ouro e mármore.

TODOS: É Roma, Jesus.

PEDRO: De lá Tibério domina toda a face da terra.

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Sobre as cinzas das nações conquistadas, os césares construíram este imenso império. O ódio, Jesus...

TODOS: O ódio, Jesus!!!

DEMÔNIO DA 2ª CENA: O ódio foi quem deu tudo isto a Roma. Porque só pelo ódio se conquista e se constrói.

TOMÉ: Junta o ódio daqueles que odeiam porque nasceram cegos, coxos e aleijados.

ACUSADOR 01: Junta o ódio daqueles que odeiam porque nasceram cheios de doenças e iniquidades.

ACUSADOR 02: Junta o ódio daqueles que odeiam porque sofrem sede e fome.

PILATOS: Junta o ódio que sublimas nos olhos dos revoltados, escravizados, e que sofrem injustiças e iniquidades.

JUDAS: Pega também o teu corpo e tua alma, Jesus, encha-os de ódio até a fronteira da loucura.

CAIFÁS: Toma então, Jesus, esse mar de ódio...

TODOS: e varra a face da terra!

ANÁS: Pede-me esse ódio...

TODOS: e eu te darei!!!

BARRABÁS: Com ele terás poder...

FARISEU 01: e com poder

TODOS: terás o mundo.

FARISEU 02: muita coisa te darei, Jesus, se te ajoelhares diante de mim e me adorares.

JESUS: Retira-te Satanás, porque também está escrito, amarás o Senhor teu Deus e somente a Ele servirás!

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Aqui estou e tu me expulsas? Escuta, Jesus. Tu te glorias com o nome de Judeu, julgas ser a luz dos que erram nas trevas; mas aí estão tu e o teu povo, há quinhentos anos escravos, a espera de um Messias!

PILATOS: Aqui estou e tu expulsas quem tem poder para fazer-te maior que Moisés, que de uma leva de escravos fez uma nação!

JUDAS: Buscas o trono de Davi. Aqui está quem tem poder para te dar um trono maior que o de Tibério.

CAIFÁS: Ai de ti, Jesus de Nazaré!

TODOS: Ai de ti, Jesus de Nazaré!

ANÁS:Ai de ti que terás teu corpo reduzido a cacos como um vaso de cerâmica.

BARRABÁS: Ai de ti, Jesus!

TODOS: Carpinteiro de Nazaré!

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Ai de ti que terás tua alma triste até a morte!

(OS ANJOS DE DEUS VEM SERVIR A JESUS) (PARTICIPAÇÃO DOS ALUNOS DA EUPLÍNIA)

ANJOS: (Canto) – Mais que amigos – Dalvimar Gallo



Não é preciso mais adormecer
Pra sonhar com um anjo descendo do Céu
Basta você perceber
Que sou mais que um amigo fiel

Sou aquele que traz a alegria de Deus
E a entrega direto ao seu coração
E com você vou sorrir e chorar
Lado a lado vamos caminhar

Quando de ajuda você precisar
Dou minha vida pra lhe resgatar
Esse é o desejo de Deus, de Deus
De hoje em diante o seu anjo sou eu

Sou muito mais que um amigo
Sou o anjo que o Senhor enviou
Pode gritar para o mundo ouvir
Sou o anjo que o Senhor enviou pra você

Não tenho asas, nem sei voar
Mas o que o mundo não pode eu posso lhe dar
Vou lhe mostrar o Caminho de Deus
Só Ele pode te santificar

Quando de ajuda você precisar
Dou minha vida pra lhe resgatar
Esse é o desejo de Deus, de Deus
De hoje em diante o seu anjo sou eu

Sou muito mais que um amigo
Sou o anjo que o Senhor enviou
Pode gritar para o mundo ouvir
Sou o anjo que o Senhor enviou

Quando você se ferir e do Céu se afastar
Eu lhe trarei para perto de Deus
Quando sentir solidão, vem comigo rezar
Eu levarei suas preces a Deus

Nós somos mais que amigos
Somos anjos que o Senhor enviou
Vamos gritar para o mundo ouvir
Somos anjos que o Senhor enviou

Nós somos mais que amigos
Somos anjos que o Senhor enviou
Vamos gritar para o mundo ouvir
Somos anjos...


(OS ANJOS SE AFASTAM)

CENA III

JESUS: Jerusalém... Ah, Jerusalém se ao menos neste dia, pudesse reconhecer o que lhe traz a verdadeira paz! Porém, isto está encoberto para os seus olhos! Dias virão, para você, em que seus inimigos a cercarão de trincheiras. Serás sitiada! Eles a destruirão e não deixarão pedra sobre pedra, porque você não reconheceu o tempo em que foi visitada! Oh, Pai! O zelo de sua casa me consome! Tomem cuidado com os doutores da Lei! Gostam de andar com roupas vistosas e de ser cumprimentados nas principais ruas! Gostam de ocupar as primeiras cadeiras nas sinagogas e os melhores lugares nos banquetes. Mas ai de vós doutores da Lei e fariseus hipócritas que filtram um mosquito e engolem um camelo! Ai de vós porque sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem bonitos aos homens, mas por dentro estão cheios de ossos dos mortos e de toda a podridão! Assim, vocês também, por fora parecem homens bons e justos, mas por dentro estão cheios de mentiras e maldades! Serpentes! Raça de víboras! Como esperam escapar da condenação do inferno?! Acordai... O tempo está próximo!!! Olhai para mim e bebei da água da vida. Eu sou a água viva que jorra para a eternidade!!!

(APROXIMA-SE A SAMARITANA)

JESUS: Mulher, dê-me água.

(ELA FINGE QUE NÃO ESCUTA)

JESUS: Não me escutas? Falo com você
SAMARITANA: Como sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? Esqueceste que os judeus não se comunicam com os samaritanos?

JESUS: Se tu conhecesse o dom de Deus, e quem te diz: “dá-me de beber”, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.

SAMARITANA: Senhor, tu não tens com o que tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? És tu maior q o nosso pai Jacó, que nos deu o poço?

JESUS: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para todo o sempre.

SAMARITANA: Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la.

JESUS: Vai chama seu marido, e vem cá.

SAMARITANA: Não tenho marido.

JESUS: disseste bem: Não tenho marido; porque tiveste cinco maridos e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.

SAMARITANA: Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar.

JESUS: Mulher, crê-me que a hora vem em que nem aqui nem em Jerusalém adorareis o Pai. O Pai é Espírito e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.

SAMARITANA: Eu sei que o Messias vem; quando ele vier, nos anunciará tudo.

JESUS: Eu sou o Messias e lhe digo que é chegada a hora da colheita. Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a colheita.

SAMARITANA: Vejo que és verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo. Senhor, vem e fique conosco mais um pouco em nossa casa...
(SAEM)

CENA IV

CAIFÁS: Com mil diabos! Essa situação não pode permanecer assim! Esse Jesus de Nazaré precisa ser punido, antes que todos se bandeiam para o lado dele. Até os soldados do templo se atrevem a dizer que “ninguém jamais falou como aquele homem!”

FARISEU 01: Por ventura, ele enganou também os nossos soldados?

FARISEU 02: Mas quem poderá ser esse Messias que anuncias à porta da cidade? Algum poderoso rei que nos vai encher os celeiros, e abastecer-nos de óleo e mel, e dar a todos terras de cultura e vestes com que cobrir a nudez?

FARISEU 01: Quem é essa criatura na qual depositais tanta fé? De onde ele tirará tudo que falta ao povo? E como ele realizará todos os sonhos dos judeus? Irá conquistar outros países? E onde encontrará exércitos? Que aliados terá?

CAIFÁS: Não estão vendo que o homem é desarranjado da cabeça? Suas palavras não têm jeito nem significação.

ANÁS: Não! Não! Se ele fala assim, alguma coisa deve haver. Precisamos trazê-lo ao Sinédrio; basta de tanta imprudência em face do céu!

NICODEMOS: De acordo com a nossa lei, não podemos condenar homem algum, sem primeiro ouvi-lo, e sem antes procurar saber o que ele fez.
CAIFÁS: Será que você também é da Galileia?! Estude as escrituras e ficará sabendo que da Galileia jamais sairá um profeta.

FARISEU 02: Ouviste-o? Ele quer excluir-nos do Reino do Céu. Tem lá seus favoritos. Tem seus próprios filhos de Abraão, para os quais reserva o Reino. Não está claro que vamos ser excluídos?

ANÁS: Arrastemo-lo perante o tribunal!

FARISEU 01: Não podemos suportar esse homem! Tem dentro de si um espírito mau. Está louco!

FARISEU 02: Que faremos? Há notícias de muitos milagres realizados por ele. Se deixarmos continuar assim, todos irão acreditar nele. E virão os romanos, destruindo nosso lugar santo e o povo, o templo e a nação.

FARISEU 01: Ele ínsita o povo contra nós. Acusa-nos de legalistas... Que depositamos pesados fardos nas costas do povo, e se não bastasse, se proclama “Filho de Deus”!

ANÁS: Jesus! Um homem vindo de Nazaré! Acaso alguma coisa que preste vem daquele lugar? Um filho de carpinteiro... Um herege que expulsa demônios pelo poder de Belzebu!

FARISEU 02: Ele se fez a si próprio o juiz e o mestre aqui. É ele o que abre e fecha a porta. De onde lhe vem a autoridade?

ANÁS: Ele fala contra o templo, contra o altar e os sacrifícios!

NICODEMOS: Mas o profeta disse: “Eu desejo justiça e não sacrifícios”. Quem por acaso é maior que Jeremias? E não chamou ele ao Templo uma caverna de facínoras?

CAIFÁS: Jeremias era um profeta!

NICODEMOS: Qualquer judeu pode ser profeta!

ANÁS: Mas alguém já admitiu que da Galileia viesse algum profeta?

NICODEMOS: Está escrito: “Toda a terra está cheia com a sua glória”. A graça de Deus enche a terra e de qualquer ponto pode levantar-se um profeta, ao qual Deus confie sua palavra.
CAIFÁS: Vocês não compreendem nada! Vocês não estão vendo que é melhor para todos, que um só homem morra pelo povo, em vez de fazer perecer toda a nação? (pausa) – Precisamos de um plano! Um plano para matar Jesus!

ANÁS: Afirmo que este Nazareno promove uma rebelião contra o céu! O homem deve ser preso, julgado e condenado, no mínimo, aos açoites!

FARISEU 01: Estamos a disputar a raposa antes de haver colhida. A questão é prendê-lo – É prendê-lo fora da área do templo, e para isso cumpre saber onde ele fica. Em segundo lugar ter a certeza de que o preso é realmente o homem que procuramos. O rabi da Galileia anda sempre rodeado de discípulos que o defenderão até a morte. Precisamos conquistar um de seus seguidores e suborná-lo com dinheiro ou outra recompensa.

FARISEU 02: Creio que temos uma boa indicação do refúgio do rabi. O discípulo que procurávamos conquistar nos apareceu. Não sei quais as suas razões para trair o mestre, nem o que está atrás disso.

CAIFÁS: Prenderemos Jesus por meio de um ardil e o mataremos!

FARISEU 01: E o povo?

ANÁS: Não devemos fazer isso durante a festa, para não haver tumulto no meio do povo.

NICODEMOS: Peço licença para me retirar deste Conselho. Não posso compactuar com essa atitude dos senhores.

CAIFÁS: Ora, Nicodemos! Não seja idiota! Mas, vá! Vá mesmo!

(NICODEMOS SAI E NO CAMINHO ENCONTRA COM JUDAS PROSTADO GEMENDO)

CENA V

NICODEMOS: Judas, Judas, porque gemes e tens a alma angustiada?

JUDAS: Não posso, não posso suportar Jesus por mais tempo! Ele me agarra com o furor da tempestade e lança-me do mais alto da esperança ao mais profundo abismo.

NICODEMOS: Mas, Judas, qual o significado dessas aflições?

JUDAS: Não suporto mais o tormento da dúvida! Quem é Ele? Veio para confortar-nos, trazer-nos a cura e o socorro, ou veio para aumentar as nossas agonias, para atar-nos como bezerros, e para sempre, aos pés de Roma?

NICODEMOS: Judas! Que coisas estás a dizer?

JUDAS: Ele veio para libertar o mundo inteiro e nos deixa em trevas? Por quê? Não somos sangue de seu sangue? E agora – vão todas as bênçãos ser tomadas de nós e dadas a estranhos? Afinal, veio nos libertar ou escravizar-nos ainda mais? Estou exausto da dúvida que me esmaga. Não suporto mais.

NICODEMOS: Judas, perdeste a fé em teu rabi?

JUDAS: Deus me livre! Mas onde estão os limites da fé?

NICODEMOS: Esvaziarias o oceano com um dedal de costureira, Judas? Só assim medirias a profundidade da fé. Fé não é mercadoria que se compra hoje e vende amanhã. As decisões de Deus estão acima da nossa compreensão. Estão ocultas pelos limites de nossos dias e brilham em sua significação um dia depois de nossa morte. Por que te apressas desse modo, Judas? Espera, e tudo te será revelado.

JUDAS: Ajuda-me Nicodemos, a ver claro nos caminhos do meu rabi. Estou como um homem suspenso no ar e que não pode mover-se. Ele me arrancou da terra, mas não me largou no céu. Não posso viver assim. (cobre o rosto com as mãos e chora).
(DEPOIS DE UM TEMPO, JUDAS, SAI EM DISPARADA NA DIREÇÃO DO SINÉDRIO)

NICODEMOS: Judas, aonde você vai?

(JUDAS PARA POR UM INSTANTE E RESPONDE)

JUDAS: Não posso esperar mais. Minha alma transborda, a taça está cheia. O sofrimento amadureceu o tempo e Israel espera angustiada. Tenho que me apressar. Acelerar os acontecimentos. Vou fazer o que precisa ser feito sem demora.

NICODEMOS: (grita) Judas, o Filho do Homem é como o Senhor da Morte.

JUDAS: (nos degraus da escada) – (oração) – Pai do céu, por que entre todos, só a mim escolheste para a maldição? Por que acendeste em mim este fogo que é sede da salvação? Por que laceras-me com o chicote do desejo de redenção e lanças-me na noite? Por que tu me escolheste como a pedra de que vai sair a faísca que acenderá a luz do mundo? Tu me enviaste e eu irei! Como bode expiatório, serei despedaçado nas rochas, mas estas serão as eternas rochas da gerações não nascidas. E eu farei por amor à redenção.Sem mim nenhuma redenção virá. Sou parte da redenção. E se é assim, isso também é minha dor, meu sofrimento. Mais que os outros, sofrerei cada dor que Ele sofrer. Sangrarei com cada ferida sua. Beberei as gotas de suor que saírem de seu corpo, e essas gotas entrarão dentro de mim como chumbo derretido. Gemerei cada gemido Seu e gritarei com Seu grito quando a redenção vier! A redenção também é minha! Rabi, rabi, vê – eu desço ao poço mais profundo afim de que possas subir até Deus!

(ENTRA APRESSADO NO SINÉDRIO.)

NICODEMOS: A ti, Judas, não incumbe completar a tarefa!

 (PORÉM, JUDAS JÁ NÃO O ESCUTA E NICODEMOS O ACOMPANHA DE LONGE E ENTRA TAMBÉM NO SINÉDRIO)

ANÁS: Quem és? Como se atreve a invadir o conselho?

JUDAS: Eu sou Judas Iscariotes... Seguidor de Jesus e vim fazer uma proposta a vocês.

FARISEU 02: Aqui está o homem. Judas, Judas!!! Seja bem vindo, meu caro! Senhores, este homem é um dos principais discípulos do rabi e o tesoureiro do grupo.

FARISEU 01: Você disse que tem uma proposta... como confiar num de vocês.

ANÁS: então queres trair Jesus de Nazaré?

JUDAS: Quanto me dás?

CAIFÁS: Te damos 10 moedas de prata.

JUDAS: É muito pouco para eu lhes entregar aquele que tanto desejam prender.

FARISEU 01: Te damos 20 moedas de prata, isso é o suficiente.

JUDAS: Trinta moedas de prata! Se está pronto o dinheiro, estarei pronto a mostrar-vos onde está o meu mestre. Em caso contrário, ficarei na certeza de que estão com medo Dele e que nunca vão ousar por pé em seu terreno. Ele vos destruirá com um sopro. (pausa) –  Tendes medo Dele, sim! (risadas de deboche) –  Os senhores tremem só de pensar Nele!

ANÁS: Trinta peças de prata! Não se podes tomar do tesouro do templo trinta moedas sem que ninguém desconfie? Por trinta moedas de prata entregas o teu mestre? Hum. Há qualquer coisa atrás disso...

JUDAS: O negócio só a mim diz respeito. Quero esse dinheiro e tenho minhas razões. Afastei-me do meu rabi e vou procurar uma prostituta. Fazeis ou não fazeis o negócio? Bem, bem. Eu conheço as vossas razões. Estais com medo e por a mão sobre o meu mestre. (faz menção de sair)

FARISEU 02: Espera, Judas. Se não querem eles te dar o dinheiro, eu o darei. Somos muito gratos a você e falarei de ti, Judas, ao Procurador Pôncio Pilatos. Muito merecerás de Roma. Terás posto em nossas mãos um dos mais perigosos perturbadores da paz. Você nos prestará um grande serviço.

CIAFÁS: tudo bem, vamos pagar com o dinheiro do templo, mas, precisamos ter a certeza de que Judas nos indicará o homem certo.

JUDAS: Indicá-lo-ei com toda a certeza.

FARISEU 01: Como?

JUDAS: Basta vocês me seguirem. Ficai tranqüilos porque eu farei tudo discretamente. O homem que eu beijar na face e ao qual disser “MESTRE”, vocês prendam, porque é ele quem vocês estão procurando.

ANÁS: Dai-lhe o dinheiro e ele que nos mostre o lugar.

(CAIFÁS JOGA O SAQUINHO COM AS MOEDAS DE PRATA)

JUDAS: Não fica longe. É bem perto daqui, no Monte das Oliveiras.

(JUDAS SAI E EM SEGUIDA O CONSELHO / PERMANECE SOMENTE CAIFÁS, ANÁS E NICODEMOS)

CENA VI

(JESUS SAI COM PEDRO, TIAGO E JOÃO PARA O HORTO DAS OLIVEIRAS / NO CAMINHO, EM POSIÇÃO DE DESTAQUE, ELE DIALOGA COM OS DISCIPULOS)
JESUS: Vejam! O tempo mudou. Os ventos mornos, anunciadores da primavera e da Páscoa começaram a soprar... Ficai atentos e vigiai porque quando vem a tarde vós dizeis: o dia de amanhã vai ser bom, porque o céu está ruivo. Pela manhã dizeis: vamos ter chuva hoje porque o céu está carregado. Sabeis interpretar os sinais do céu mas não sabeis interpretar os sinais da terra. Uma geração má e adúltera deseja um sinal, e nenhum sinal será dado. Mas o que eu disse tudo vai se dar. Filhinhos, não há limites para a fé. Fé é a corda que o homem segura quando desce ao inferno. Com ela vai para a beira do túmulo e mais além e, ainda que eu caminhe no vale da sombra da morte, nada temo porque o Pai está comigo. Se acreditardes em mim, então terás o Reino Celestial como morada eterna. Meus amados, O Reino do Céu não vem de palavras. Não podeis dizer que está aqui ou ali; porque o Reino de Deus está em vós mesmos. Como um relâmpago que rutila dum extremo do céu a outro, assim será em seu dia o Filho do Homem. 

(SEGUE PARA O MONTE DAS OLIVEIRAS)

JESUS: Filhos, agora a minha alma está perturbada. Esta noite serei motivo de escândalo. E vocês todos vão fugir e me abandonar, porque as escrituras saradas dizem: “Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão”. Mas depois que eu ressuscitar, irei adiante de vocês para a Galileia. (pausa) – Sentem-se por aqui, enquanto eu vou até ali fazer uma oração. A minha alma está triste até a morte. Vigiem e rezem comigo, porque o espírito pode estar pronto, mas a carne é fraca. (afasta para orar)

(OS DISCIPULOS DORMEM IMEDIATAMENTE)

JESUS: Pai do céu, tem misericórdia de Tua criação e põe-na sob a tua piedade. Que belo o Teu mundo, que grandes os Teus feitos! Vê, Deus, o abotoar das coisas em seu anseio de vida. E tenho de mergulhar na sombra da morte? Se é possível, afasta de mim este cálice. Tudo te é possível a Ti, Pai. Porém não seja como eu quero, mas como Tu queres!

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Tu só não beberás se esta for a sua vontade. Desafiastes muito os poderosos, Jesus. Fostes longe demais como homem, e ficaste perto demais como Deus. Desiludistes os fracos e escravizados. Os que te amam continuam nus como o encontrastes e os tribunais continuam cheios de violência!

JESUS: Bem aventurados os que têm sede de Justiça, porque serão saciados.

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Continuam sofridos os humildes e frustrada a esperança dos infelizes. Os famintos continuam a passar fome!

JESUS: Bem aventurados os que têm fome, porque serão fartos.

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Os órfãos são violentados, os pobres escravizados, e os que não são mortos durante o dia são assaltados durante a noite.

JESUS: Bem aventurados os pobres, porque herdarão o Reino dos Céus.

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Acaso tiraste o pó dos desvalidos, e a miséria dos indigentes? Fizeste acaso os homens saberem se são dignos de amor ou de ódio?

JESUS: Bem aventurados os mansos, porque possuirão a terra.

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Não tivestes força, Jesus, para derrubar os que estão nos tronos, e nem poder para livrar os que estão na sarjeta. Os dias dos homens como antes, continuam cheios de dores, decepções e amarguras.

JESUS: Bem aventurados os que agora choram, porque serão consolados.

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Jesus de Nazaré! Tu te fizeste de profeta, enquanto eles clamam por um libertador!

JESUS: Bem aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados de filhos de Deus!

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Jesus de Nazaré! Tu não beberás! Basta que dê aos homens o que eles querem! Dá-lhe ódio ao invés de amor! Dá-lhes guerra ao invés de paz! Dá-lhes terra, ao invés de céu!

JESUS: Pai, Pai, eles são os campos em que semeei minhas sementes. São a leiva onde vão germinar os grãos que lancei. Se o campo for aniquilado, de que terá valido minha semeadura? Perdidas estarão as minhas sementes. Eles são tudo quanto tenho. Neles plantei minha palavra. Guarda minha planta. Vê, Pai do Céu; não deixes que minha vida haja sido em vã, salva o meu trabalho

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Como homem morrerás, Jesus, e cairás como um qualquer! Ai de Ti, Jesus de Nazaré, que será ferido por Deus e humilhado.

JESUS: Rodeado estou das angústias da morte. Chamo pelo nome de Deus. A Ti peço, Deus: salva minha alma! Pai, Pai, afasta de meus lábios a taça – mas se o quiseres, não porque eu queira. (breve pausa) – Sim, embora eu caminhe no vale das sombras da morte, não temo nenhum mal porque Tu estás comigo.

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Mas, por que mostras tanto medo se Deus está contigo? Afinal, com você não estão o poder e a autoridade e, portanto o triunfo? Sim! Mas quando as angustias do terror o assaltam você é como qualquer criatura comum.

JESUS: Pai, se este cálice não pode ser afastado sem que eu o beba, então, seja feito a Tua vontade.

DEMÔNIO DA 2ª CENA: Seja feito a tua vontade! (o demônio afasta)

JESUS: A hora chegou. O Filho do Homem vai ser entregue. Eis que aquele que há de me entregar está próximo! O meu traidor está chegando!

(SURGE O GRUPO DE JUDAS)

JUDAS: Aquele que eu beijar, vocês podem prender, pois é ele!

( APROXIMAM DE JESUS)

JUDAS: Mestre! Mestre! (e caindo nos braços de Jesus, beijou-lhe a face).

JESUS: Amigo, é com um beijo que você entrega o filho do Homem.

SOLDADO ROMANO: Nazareno, você está preso!

JESUS: Por que viestes a mim como um salteador, assim com espadas e bastões? Diariamente estava eu em vosso meio no Templo onde ensinava e não me prendestes. A verdade é que assim viestes unicamente para que a Escritura se cumprisse.

SOLDADO ROMANO: As explicações são lá com o Sumo Sacerdote. (e ataram-lhe os pulsos)

(JESUS É PRESO E OS DISCIPULOS FOJEM)

CENA VII

ANÁS: O Sinédrio foi convocado e sem demora este homem será julgado.

NICODEMOS: Impossível!...

ANÁS: Por quê?

NICODEMOS: O sinédrio não pode-se reunir à noite para julgar um homem que está sujeito à pena de morte. Temos de esperar até amanhã de manhã. É contra a lei

CAIFÁS: O tempo não está para formalidades, e aviso-vos de que estais a brincar com fogo. Amanhã de manhã o nazareno deve comparecer diante de Pilatos. Tudo estou fazendo para evitar um morticínio na cidade e grandes inconvenientes para todos nós.

ANÁS: A sessão foi convocada para julgar um homem que tem procurado levar os judeus à rebeldia contra o Deus dos judeus. E a convocação foi noturna por se tratar de matéria urgente.

FARISEU 01: Julgamento de vida e morte à noite? Quem já ouviu falar de tal coisa? Todo julgamento, segundo a lei, se inicia com o dia claro e com tempo largo para o preparo da defesa. Por isso eu, sendo chefe dos fariseus, em Israel, começo por dizer que esta corte não pode legalmente funcionar a estas horas. Qualquer sentença que a corte pronuncie será nula. O julgamento terá sido contra a lei e a justiça do Torah.

SADUCEU (antigo Sumo Sacerdote Eliezer): Meu Senhor Sumo Sacerdote! Embora nós, saduceus, não aceitemos o complicado processo com que os fariseus rodeiam os julgamentos de crimes capitais, com eles estou neste momento.

CAIFÁS: Meritíssima corte, declaro que esta sessão não é de julgamento. De acordo com as nossas leis não podemos dar sentença neste caso, porque é matéria incumbente ao governo. Por isso converto esta sessão em sessão de investigação e exame. ( caminha até Jesus) – Então és Tu, o profeta? O Filho de Deus? E seus discípulos? Fale de sua doutrina...

JESUS: Eu sempre falei abertamente ao mundo. Sempre ensinei na sinagoga e no templo. Nada falei às escondidas. Por que o senhor me interroga? Pergunte àqueles que ouviram o que eu falei! Eles sabem o que eu lhes disse!

GUARDA: (dá-lhe uma bofetada) – É assim que responde ao Sumo Sacerdote?

JESUS: Se falei mal, dê testemunho do mal, mas se falei bem, por que me bate?

CAIFÁS: Apareçam as testemunhas!

(ENTRA JUDAS)

NICODEMOS: Judas como testemunha! Judas, essa abominação em Israel... Testemunha, Judas? Ele? Que seu corpo seja aberto como de um peixe, e isso no dia da Expiação, ainda que esse dia caia no sábado. Morto seja ele por quem o encontrar! Riscado está o seu nome da congregação de Israel e ele seja amaldiçoado com todas as maldições do anátema por todas as gerações. Judas não pode testemunhar aqui, porque um delator não é testemunha de reputação aceitável.

(JUDAS COBRE O ROSTO COM A PONTA DE SEU MANTO  E É RETIRADO DO SINÉDRIO)

(OUVE-SE A PROXIMA TESTEMUNHA)

1ª TESTEMUNHA: Este homem declarou: “posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias!

2ª TESTEMUNHA: Porque nós mesmo o ouvimos dizer: “Eu destruirei este templo feito pela mão dos homens e, depois de três dias, edificarei um outro, não feito pela mão dos homens!

CAIFÁS: Você não responde nada? Você nada responde às acusações que estes fazem contra você? (para os conselheiros) – Meritíssima corte! Ouvimos às acusações contra o homem. Quem é esse homem que está de pé diante de nós? Com que direito e autoridade diz ele o que diz e faz? (pausa) – Neste ponto só uma testemunha poderá esclarecer-nos e essa testemunha é ele mesmo. (longa pausa) – Eu o conjuro, em nome de Deus vivo, que nos declare se você é o Messias, o Filho de Deus? Se você é o Cristo, o filho de Deus bendito?

JESUS: (pausa) Eu Sou! E depois disto, todos verão o Filho de Deus sentado a sua direita e vindo sobre as nuvens do céu!

CAIFÁS: Blasfêmia! Blasfêmia! Ele blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Todos vós ouvistes a blasfêmia. E agora pergunto pelo veredicto da corte.

FARISEU 02: Filho da morte!

SADUCEU: Filho da morte!

CAIFÁS: É réu de morte!

TODOS: É réu de morte!

CAIFÁS: Amanhã bem cedo, conduzam este homem a Pilatos!

(SAEM TODOS EM ZOMBARIA)

CENA VIII

(JUDAS CORRE DE UM LADO PARA O OUTRO COMPLETAMENTE LOUCO)

DEMÔNIO 2ª CENA: (Dando gargalhadas) – Eu sei reconhecer o cheiro da morte a uma légua de distância! Judas, Judas! Não sente o teu nariz o cheiro da morte?

JUDAS: Sai de mim, ó deus – ou satã! Desse trigo não virá nenhum pão, porque a massa não é produzida com o levedo de Deus e sim de satã.

DEMÔNIO 2ª CENA:  (muitas gargalhadas)

JUDAS: Vós que passais, tenhais medo. Olhai para mim e pasmai. Aqui está um homem. Eu, Judas! Eu mesmo sinto revolta e nojo de mim. Mim assombro comigo mesmo e estremece a minha carne. (pausa) Aonde ireis com tanta pressa? Ver um Deus morrer?

DEMÔNIO 2ª CENA: (dando gargalhadas) – Judas! Não achas tarde para se arrepender, meu caro?

JUDAS: Por que me fizeste mal? Por que me fizeste cometer tal atrocidade? Por que fazes a morte subir pelas nossas janelas, invadir nossas casas e destruir nossos lares. Por que faze-nos pecar e cometer crimes?

DEMÔNIO 2ª CENA: É a mim que perguntas, Judas?

JUDAS: Afinal, quem és?

DEMÔNIO 2ª CENA: Sou teu irmão na amargura!

JUDAS: Então não tens nada a mim dizer? Como podes se alegrar com a condenação de um inocente? Como é possível viver com tanto ódio? Diga-me preciso saber! Por que espalhas o mal sobre a face da Terra?

DEMÔNIO 2ª CENA: Não estamos falando de mim, meu caro. Acaso fui eu quem o traiu? Foste tu, Judas, o traidor, e terás que conviver com esse fardo

JUDAS: Tenho ânsia de repouso, quero mergulhar nas sombrias ondas da noite. Lançarei meu corpo aos látegos dos malvados, quando eles o lacerarem. (Pausa) De repente tudo ficou vazio. Eu não sei mais onde está o começo e o fim. Apenas uma imensa amargura toma conta de mim.

DEMÔNIO 2ª CENA: Eu tenho para ti a solução, meu irmão na amargura. Olhe aquela forca. Veja como ela espera por você. (joga a corda) - Vá para a sua grande noite, onde tudo se acabará e não mais carregarás este fardo. Nada verás, nada ouvirás, nem ódio, nem amor, nem pecado, nem perdão. Nada, Judas, não haverá mais nada!

JUDAS: Tens razão, Deus não está mais comigo, não tenho mais fé! (Judas se dirige para a forca) – Deus dos exércitos, contra a minha vontade, mim lançastes a esse mundo, e contra a tua vontade serei banido dele! (sai).

DEMÔNIO 2ª CENA: (dando gargalhadas) – Isso Judas, é este o destino dos traidores!

CENA IX

(ENTRAM COM JESUS E O APRESENTAM A PILATOS)

PILATOS: Messias! Messias! Já ouvi esta palavra. Que quer dizer? ( pausa) – Será este o anjo do céu que vimos chegar para a festa? Este é o Profeta de Nazaré de quem se espera a redenção? O Rei dos Judeus? O homem redentor que veio libertar os judeus... Mas, o que eu vejo: um homem com pavor da morte! Vê... Ele treme, está tomado de terror... a isto chamo eu covardia! (pausa longa e depois se dirige à multidão) – Que acusações apresentam contra este homem?

CAIFÁS: Se não fosse um malfeitor, não o entregaríamos. Este homem está subvertendo a nossa nação! Incentiva o povo a não pagar os impostos a César e pretende ser, ele próprio, o Cristo Rei, o Messias.

PILATOS: Messias... Mais uma vez a palavra Messias! E vocês acreditam nisso? Tomam isso a sério?

CAIFÁS: Sim, tomamos. E todos vivemos à espera do Messias.

PILATOS: Então todos devem ser crucificados juntamente com este homem. E dão-no ainda como rei dos judeus?

CAIFÁS: Ele próprio se proclamou rei e entrou em Jerusalém montado num asno e seguido de uma multidão de adeptos que o proclamavam Messias.

PILATOS: (para Jesus) – És então o rei dos judeus?

JESUS: O senhor fala assim por si mesmo, ou os outros lhe disseram isso de mim?

PILATOS: Eu, porventura, sou eu judeu? (pausa) – O seu povo entregaram-me você. Que fizeste?

JESUS: Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, certamente meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus.

PILATOS: Então confirmas? Você é rei.

JESUS: Você o diz: Eu sou rei! Para isso nasci, e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que pertence à verdade, escuta a minha voz!

PILATOS: E o que é a verdade? (afasta-se de Jesus e se dirige ao povo) – Não encontro nele crime algum. Nenhum motivo de condenação. Levem-no vocês mesmo e julguem-no conforme a sua lei.

CAIFÁS: A nós não é permitido condenar ninguém à morte!

PILATOS: Pois bem! Os senhores me apresentaram este homem como agitador do povo, todavia não encontrei nele nenhuma culpa, daquelas que os senhores o acusam, como veem, este homem nada fez que mereça a morte. (noutro tom) – Por isso, eu vou castigá-lo e depois o soltarei.

(MUITO BARULHO E ALGAZARRA)

FARISEU 01: Não! Não o solte! Liberta-nos Barrabás!

FARISEU 02: Isso mesmo! Solte Barrabás! Cumpra com o costume de libertar-nos um preso por ocasião da páscoa!

TODOS: Barrabás! Barrabás!

PILATOS: E que farei do Rei dos Judeus?

VOZ 01: Que rei dos judeus?
PILATOS: O vosso Messias.

VOZ 02: Aquele que curava doentes?

VOZ 03:  O profeta de Nazaré?

VOZ 04: Quando ele foi preso?

VOZ 05: Não vedes lá. Olha ele lá...

VOZ 06: É ele!!! Prenderam ele. Prenderam Jesus de Nazaré!

MUITAS VOZES: (SE DANDO CONTA DA PRISÃO DE JESUS)

SADUCEU: Silêncio! O Procurador quer falar.

PILATOS: Que mal encontrastes neste homem a quem chamais rei dos judeus?

SADUCEU: Ele não é rei dos judeus. É um blasfemo!

PILATOS: E então? Em homenagem à festa da páscoa quereis a libertação de Barrabás ou a do Rei dos Judeus?

VOZ 01: Faça morrer Jesus! Solte-nos Barrabás!

TODOS: Barrabás! Barrabás!

PILATOS: E o que farei com Jesus chamado Cristo?

VOZ 02: Seja crucificado!

TODOS: Crucifica-o! Crucifica-o!

PILATOS: (para Jesus) – Ouviste o que disse o povo? (Jesus ficou em silêncio) – Não respondes nada? Veja de quantas coisas o acusam. (mais silêncio) – Nazareno... ignora diante de quem te estás? Não sabes que está em minhas mãos libertar-te ou pregar-te na cruz?

JESUS: (levanta a cabeça) – Você não teria nenhum poder sobre mim, se não lhe tivesse sido dado do alto. Por isso quem me entregou a você tem maior pecado.

CAIFÁS: Se soltares este homem, não é amigo de César; porque todo aquele que se faz rei, se declara contra César!

PILATOS: Eis aqui o vosso rei!

SADUCEU: Não temos outro rei senão César! Crucifica-o!

TODOS: Crucifica-o! Crucifica-o!

PILATOS: (lava as mãos) – Eu estou inocente do sangue deste justo! A responsabilidade é de vocês!

FARISEU 01:Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos!

PILATOS: Libertem Barrabás.

SOLDADO: Procurador, Barrabás é um rebelde perigoso. Esteve levantando o povo contra Roma.

PILATOS: É muito mais perigoso para todos nós o espírito hebreu do que o punho hebreu. Vamos! Podem levar Jesus para a cruz. Açoitai-o e crucificai-o! coroai-o de Rei dos Judeus e no alto da cruz escrevam nas três línguas do país: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”

SOLDADO:Eia! Vamos coroá-lo Rei dos Judeus. (coloca a coroa de espinhos)



CENA X

(COLOCAM-LHE A CRUZ E SAEM COM JESUS RUMO AO CALVÁRIO / ZOMBARIA / ENCONTRO DE JESUS COM AS MULHERES / VERÔNCA LIMPA O ROSTO DO CRISTO E PROFERE O SEU CANTO / CHEGAM AO CALVÁRIO / CRUCIFICAÇÃO / LEVANTAMENTO DA CRUZ )

JESUS: (durante a crucificação) – Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!

(MARIA SE APROXIMA DA CRUZ JUNTAMENTE COM AS OUTRAS MULHERES E JOÃO)

MARIA: Filho... Meu filho!!!

JESUS: Mulher... eis aí o teu filho. Eis ai a tua mãe (pausa) – Tenho sede! (esponja de vinagre – Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? (pausa) – Tudo está consumado! (pausa) – Pai, em tuas mãos entrego meu espírito. (termina com um forte gemido. Quase um grito).

(EFEITOS ESPECIAIS TIPOS VENTO, TROVÃO, TERREMOTO). (TODOS SAEM PAULATINAMENTE)

CENA XI

J. ARIMATEIA: Governador?!

PILATOS: Meu caro José... Estou saboreando um bom vinho. Aceita?

J. ARIMATEIA: Não, obrigado! Venho lhe pedir que me permita retirar o corpo de Jesus da cruz.

PILATOS: O corpo de Jesus... Fico surpreso...

J. ARIMATEIA: Quero poder enterrá-lo.

PILATOS: sim. Mas, diz-me como tu, homem rico e culto, e membro do conselho , te consideras discípulo desse Jesus de Nazaré, a quem os Sumos Sacerdotes classificaram de impostor e blasfemo?

J. ARIMATEIA:Procurador Pôncio... Este a quem condenaste à cruz foi vítima da inveja e da incompreensão...

PILATOS: Incompreensão?... Como entender um homem que se proclama rei e assegura que o seu reino não é deste mundo? Tu o compreendes?

J. ARIMATEIA: Poucos souberam interpretar as palavras do mestre. Ele nos falou do espírito e não das armas ou conquistas.

PILATOS: Então, José, onde achas que fica o reino do teu mestre?

J. ARIMATEIA: Tal como ele disse, na alma de cada um de nós... e agora, se me permites, procurador... O dia de preparação para a páscoa está chegando ao fim, e amanhã, sábado, é um dia solene. Não convém que corpos fiquem expostos no Gólgota.

PILATOS: (Bate palmas) – Asseguras que Jesus morreu e acredito em ti, mas devo me certificar através dos meus próprios soldados. Transcorreram apenas três horas desde que o enviei para a cruz... Como pode estar morto? (torna a bater palmas. O guarda aparece) – Jesus já está morto? (o oficial confirma) – Bem, tens a minha permissão para retirar o corpo de Jesus. (para o guarda) – Guarda! Acompanhe-o e o entregue o corpo do condenado.

(RETIRAM JESUS DA CRUZ E COLOCA-O NOS BRAÇOS DE MARIA)

MARIA:Oh, vós que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor igual a minha dor! (choro)

(SEGUE O CORTEJO FÚNEBRE E ENTRA NA IGREJA / EM SEGUIDA SAI O ESQUIFE DO SENHOR MORTO PARA A PROCISSÃO DO ENTERRO)
F  I  M

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