sábado, 12 de novembro de 2011

SAUDADES DO MEU SÃO JOÃO...


    Era uma vez... São João!
                  Gladiston Batista de Araújo

“Quando eu era pequenino de pé no chão...”

Este verso é de uma das antigas canções juninas, que embalaram a minha infância, assim como a de outras tantas crianças de minha época.
E como eram grandiosas e belas aquelas festas! Eram a própria consagração da cultura proveniente de nossos antepassados, da nossa concepção religiosa e da partilha dos frutos advindos do trabalho de nossos familiares.
Os preparativos das festas careciam de muito planejamento e trabalho. Nada podia ser esquecido. Tudo era seguido à risca, mas sem formalidades.
As calçadas tornavam-se secadores de goma, enquanto nos quintais os jiraus também exibiam o branco suave desta farinha de mandioca, que era utilizada para a fabricação dos biscoitos deliciosos de “São João”.
Minha mãe era a biscoiteira oficial de toda a rua; e de outras ruas também. Ela era solicitada por muitas donas de casa para fazer os biscoitos. E fazia, para todas, com prazer. Nada cobrava. Fazia tudo pela amizade e pelo amor às festas.
Naqueles dias, as mulheres ficavam atarefadíssimas. Corriam de comadre em comadre, trocavam receitas e tagarelavam como nunca!
Mandei o Joãozim fazer ôi de sol pra parar de chuver! Se continuar assim, os biscoito num incha e nem pode botar fogo na foguera...”
“Cumade Duminga fez os biscoito onte. Rendeu, minina! Precisa ver...”
“Os minino de San Palo vai vim?”
“A sinhora vai fazer de cuzido e assado?”
“Toca as galinha da goma, marlenu! Oh, meu Deusum! Corre lá, Robertum!”
“O forno de cumpade Arliete já num ta assano muito bem...”
“Nessas revuada de foguera as galinha num botou nem metade dos ovo que eu precisava...”
“Guilo, este ano, vai matar carneiro... Num sei pra que, Merinda, se ele num come...”
“Dia de San João, antes do sol sair, vou oiá minhas oreas na água, pra ver se eu vô tá viva no ano que vem. Sapolina, ano passado oiou e num viu uma. Cadê ela hoje? Morreu, tadinha!”
Assim, eram fomentados os dias que antecediam as festas.
As escolas, sob o comando de Albertina de Isnaldim, ensaiavam as quadrilhas; no quintal de sua casa, Alice Pereira ensaiava o Casamento da roça; os braçais da prefeitura erguiam as barraquinhas de frente ao antigo Mercado Municipal (hoje prédio do Itaú e Emater); Zé trovão, Seu Alírio, Dija e outros sanfoneiros ensaiavam os “conjuntos”. O mais famoso era o ”Espaia Brasa”; costuras e mais costuras cobriam as camas das casas das costureiras e as fogueiras eram armadas de frente às casas por toda a cidade.
Hoje, percebo que as nossas Festas Juninas mudaram... Perderam a graça e a ingenuidade de outrora. Foram banalizadas! Ou será que depois de adulto, eu não consigo ver com os olhos de criança o lado grandioso da festa que continua existindo? Será que perdi o olhar inocente e até exagerado de criança que vislumbrava a magia do São João?
Nas famílias, pouco se falam sobre o assunto. Nem mesmo é lembrada a tão cobiçada roupa nova que todos queriam vestir nos dias de São João! Quase ninguém monta a fogueira... E o forró? Só no Mercado no dia de São Pedro. Nas casas de família, como antigamente, nem pensar! Já não há espaço para isso em nossa família moderna.
Assim, no alto de minha maturidade, assisto a estas vicissitudes estarrecido e me perguntando se é o meu balão de papel fino que não sobe mais, ou se os balões de São João ganharam protótipo novo condizente com a nova era?
Sinto Saudades... Inclusive da tradicional Festa de São Pedro no Argos clube. Mas, em todo caso: é tempo de festa! É tempo de São João!!!... E VIVA SÃO JOÃO! 
 
Redigido em 21 de junho de 2.001
Revisto em 10 de junho de 2.009

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