segunda-feira, 14 de maio de 2012

QUADRO PONTO DE VISTA – RÁDIO CIDADE LIVRE FM – 16 DE MAIO DE 2001

A FAMÍLIA FOI TEMA CENTRAL DA PEÇA PRODUZIDA POR ALICE PEREIRA
Caros ouvintes,

O Quadro Ponto de Vista de hoje, almeja, sem quaisquer pretensões, analisar ou impor interpretação unilateral do texto de Alice Pereira, apresentado ontem no auditório das mães. Mas, tem a intenção de opinar sobre a temática desenvolvida por ele.
A Peça foi composta de dez personagens e todos faziam parte de uma mesma família, dividida em quatro gerações: avó, casal de pais, filhos e netos. Uma família completa.
Esta família, no espetáculo, viveu alegrias e também mazelas bastante comuns nas comunidades familiares.
Família... Pilar de sustentação da sociedade! Apregoam os intelectuais e os religiosos as abençoam e santificam. Todos concordam e comungam ser a família o alicerce necessário para a construção de um mundo melhor. Pensando assim, é justa a necessidade que todos os segmentos estejam intrinsecamente ligados, independentes de questões ideológicas, étnicas, culturais ou de nacionalidade. É imprescindível, que todos dispensem suas ações no sentido de promover e de enaltecer a família. Ascendente teria que ser a tomada de consciência de todos, diante do desafio de em tudo se fazer para alcançar a excelência familiar.
Na Peça, a autora, de maneira perspícua, nos mostrou a problemática vivida pelas famílias, e, de modo especial, chamou a atenção dos espectadores para o tema principal de sua história: o desemprego; negação do direito ao trabalho.
O desemprego, utilizado como eixo central da trama se torna o abjeto desencadeador de todos os conflitos vivenciados na história.
Para início de conversa, aquele que lhe era reservada a missão de cuidar do sustento do grupo, encontrava-se totalmente desprovido de ser absorvido no mercado de trabalho.
Subjetivamente, pudemos chegar a alguns possíveis fatores que impossibilitavam aquele chefe de família à empregabilidade: a quase inexistência operacional de políticas voltadas para a geração e manutenção de postos de trabalho; falta de qualificação profissional adequada que pudesse atender às demandas do exigente e competitivo Mercado globalizado; promoção indiscriminada do neoliberalismo sistematizado em detrimento da dignidade humana...
O planeta globalizado dos “homens bons” visualiza o ser humano apenas como material potencializado e capaz de realizar ações mecânicas. Não abre espaços para as participações ativas e opinantes dos operários, que são os verdadeiros agentes do processo de produção. Também é notória, da parte dessa nova ordem mundial, a exclusão de pessoas mais velhas, porém, experientes e aptas para o campo de ação. Bem, poderíamos enumerar aqui, inúmeros fatores que são incisivos nesta questão e dizer que sem trabalho, a família sofre consideravelmente as suas consequências. Isso tudo compromete, altamente, a qualidade de vida dos membros familiares e, inevitavelmente, o fantasma da desagregação familiar passa a rondar os lares brasileiros.
Na peça, a família da trama, assistiu à saída do filho mais velho, que inicialmente, buscou a “sorte” no Rio de Janeiro e, não sendo bem sucedido na segunda megalópole do país, emigra para os Estados Unidos. O jovem vai para o estrangeiro deixando para traz a sua identidade, sua cultura, suas origens. Vai se aculturar em terras norte-americanas. Vai para distante de sua Pátria, em busca da realização de sonhos e do afã de salvar a família do infortúnio lastimável e, do quadro de miséria quase extremado em que vivia.
Nos Estados Unidos, Lalau (nome bem sugestivo, não acham?), contrariando a vida real, conseguiu se estabelecer; tornou-se rico em terras de Tio Sam... E, de maneira incrível, não se corrompeu.
Enquanto isso, aqui em terras "brazucas", os que ficaram se viravam como podiam.
A avó, contribuindo com o orçamento doméstico, e sempre interpondo nas discussões abrasivas do casal. Ela fazia pirulitos e o neto caçula os vendia pelas ruas da cidade.
O espetáculo não deixou claro, porém, nas entrelinhas veio o questionamento: “Seria justo aquela matrona, depois de anos a fio de trabalho, dividir com a família a sua pequena aposentadoria? Não deveria esse benefício ser destinado à sua própria manutenção? Neste trecho da apresentação vimos também, ainda que de maneira sutil e bem humorada, a exploração do trabalho infantil. Foi delatado de maneira tal, que entendemos que dificilmente isso aconteceria se os adultos tivessem rendas suficientes para suprirem fartamente a casa.
“Lugar de criança é na escola”. Assim veicula a mídia, anunciando decreto do próprio governo. Entretanto, soa falso. Cria-se um paradoxo totalmente perceptível e utópico nesta conjuntura vigente.
Outro ponto da história que chamou-me a atenção foi a acintosa e marcante rebeldia de Corina, filha do casal, que enfurecia o pai e acabrunhava a mãe. Cheia de más companhias e iludida pelo modismo, constantemente, fugia às boas regras de moça de família. Agia com falta de responsabilidade (situação bastante comum entre jovens e adolescentes sem orientações adequadas). Esse tipo de comportamento juvenil acentua-se muito em famílias que não conseguem lidar com o mérito da questão, tanto pela abulia quanto pelo despreparo educacional.
Para finalizar, caro ouvinte, vale ainda o ditado: “Entre mortos e feridos, todos se salvaram”. Kkk
O filho americanizado voltou e trouxe em sua bagagem, além de mulher e filhos, as verdinhas que chegaram ainda em tempo de resgatar aquela família do calabouço, e, finalmente, proporcionar-lhe uma vida feliz, digna e independente.
É, minha gente! Tudo pode acontecer... Até mesmo um milagre ou, quem sabe, um Salvador da Pátria poderá aparecer! Afinal, estamos vivos! E, enquanto existir a vida, haverá de existir a esperança...

Parabéns a todos do elenco...
Parabéns, Alice!
Foi uma aula de cidadania singular e um puxão de orelha bem dado.
Gladiston de Araújo – maio/2001

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