quarta-feira, 27 de junho de 2012

A POESIA - é só abrir os olhos e ver - TEM TUDO A VER COM TUDO (Elias José)

GABRIEL GARCIA MARQUEZ

OLIMPÍADA DA LÍNGUA PORTUGUESA
ANO: 2010 – EMEMB - 5º ANO

       GÊNERO: Poético            TEMA: O Lugar onde Vivo


INTRODUÇÃO AO GÊNERO

Convite

Poesia
É brincar com palavras
Como se brinca
Com bola, papagaio, pião

Só que
Bola, papagaio, pião
De tanto brincar
Se gastam

As palavras não:
Quanto mais se brinca
Com elas
Mais novas ficam.

Como água do rio
Que é água sempre nova.

Como cada dia
Que é sempre um novo dia.

Vamos brincar de poesia?

José Paulo Paes Poemas para brincar.
2ª Ed. São Paulo: Ática. 1991


Poeta brinca com as palavras.

Parece que o poeta diz o que a gente nunca tinha pensado em dizer!
Um poema é um jogo com a linguagem.
Compõe-se de palavras: palavras soltas, palavras empilhadas, palavras em fila, palavras desenhadas, palavras em ritmo diferente da fala do dia a dia. Além de diferentes pela sonoridade e pela disposição na página, os poemas representam uma maneira original de ver o mundo, de dizer as coisas.
Poeta é, assim, quem descobre e faz poesia a respeito de tudo: de gente, de brinquedo, de pessoas que parecem com pessoas que conhecemos, de episódios que nunca imaginamos que poderiam acontecer e até a própria poesia. (Marisa Lajolo)


POEMA OU POESIA?

Qual é a diferença entre poema e poesia?

O poema e um texto “marcado por recursos sonoros e rítmicos. Geralmente o poema permite outras leituras, além da linear”, ou seja, leituras sem rodeios, “diretas”, pois sua organização sugere ao leitor a associação de palavras ou expressões “posicionadas estrategicamente no texto”.

A poesia está presente no poema, assim como em outras obras de arte, “que, como o poema, convidam o leitor/espectador/ouvinte a retornar à obra mais de uma vez, desvendando as pistas que ela apresenta para a interpretação de seus sentimentos”.

Então, essa é a diferença. Quando falamos em poema, estamos tratando da obra, do próprio texto. E, quando falamos em poesia, tratamos da arte, da habilidade de tornar algo poético. Uma pintura, uma música, uma cena de filme, um espetáculo de dança, uma obra de arquitetura também podem ser poéticos. Apesar da distinção, há pessoas que afirmam ler “poesias”, como se o termo fosse sinônimo de “poemas”.

SUGESTÃO DE ATIVIDADE

Coletar poemas de poetas consagrados para a produção de um mural.
Exemplos: Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Cora Coralina, Ferreira Gullar, Paulo Leminski e outros.

PRODUZINDO O MURAL

Com os poemas, coletados ou produzidos pelos alunos, confeccionar o mural para ser colocado na sala de aula.

LEITURA DO MURAL

Agora vamos ampliar um pouco mais a discussão sobre aspectos importantes que caracterizam um poema. Vamos pensar, trocar ideias, tirar conclusões, buscar informações. Para começar, vamos comentar dos poemas que estão no mural. Registre depois por escrito.

a) Do que tratam os poemas?

b) Por que escolheram esses poemas?

c) Por que são diferentes de uma notícia de jornal, de uma receita de bolo, de uma lista de supermercado, de um verbete do dicionário? Ou de um conto?

d) Como eles se organizam no papel?

e) Eles preenchem todo o espaço das linhas, da margem esquerda à direita?

f) Há linhas em branco entre os versos?

g) Há sons que se repetem?

h) Há construções que se repetem?

i) Há expressões que, mesmo distanciadas dentro do texto, podem ser associadas, por terem semelhança sonora ou figurarem em construções iguais?

VAMOS LER?

não se acentua a palavra voo - novo acordo ortográfico

FICHA TÉCNICA DO TEXTO

a) Título:
b) Autor:
c) Gênero textual:
d) Quantidade de versos:
e) Quantidade de estrofes:
f) Tipo de narrador:
g) Obra Literária:
h) Edição:
i) Cidade:
j) Editora:
k) Ano:

INTERPRETANDO O TEXTO

a) Quais as palavras iniciais de cada estrofe do poema?

b) Será qual é a razão de todas elas (estrofes) começarem assim?

c) Verifique se apenas essas palavras são repetidas ou se ocorre a repetição de versos que compreendem uma frase inteira:

d) Relacione com os termos com que a poesia tem a ver:

e) Segundo o autor, a poesia pode falar de quê?


RESUMINDO O QUE APRENDEMOS ATÉ AGORA SOBRE POEMA E POESIA


# Constatamos que as palavras rimam quando terminam com sons idênticos ou parecidos;

# Nem todos os poemas apresentam rimas;

# Os versos são linhas do poema e podem ter a extensão variada;

# Estrofes são conjuntos de versos separados por um espaço (linha em branco);

# Um poema pode ter uma ou mais estrofes e cada estrofe pode ter número variado de versos;

# Os poemas costumam apresentar repetições de letras, de palavras ou expressões, de versos;

# Eles também podem ter repetição da mesma construção sintática, isto é, a mesma disposição das palavras nos versos e dos versos nas estrofes;

# As palavras que apresentam semelhanças – de sonoridade, de posição dentro do poema (início, meio ou final do verso), de função sintática – podem ser associadas para apoiar a interpretação do sentido do poema.

PARALELISMO SINTÁTICO

A sintaxe é a parte da gramática de uma língua que remete ao modo como as palavras combinam para formar expressões ou frases.
Nos poemas, costuma ser empregado o PARALELISMO SINTÁTICO: uma mesma construção se repete ao longo do texto. Por exemplo, observe abaixo, na estrofe do poema “CONVITE”, que um tipo de construção se repete nos versos de cor branca e outro tipo é retomado nos versos de cor amarela:

"Como a água do rio
Que é água sempre nova
Como cada dia
Que é sempre um novo dia."


NOTE MAIS UM EXEMPLO DE PARALELISMO EM “TUDO A VER”

"A poesia
Tem tudo a ver
Com as cores, as formas, os cheiros,
Com a plumagem, o voo."


PRODUZINDO O PRIMEIRO POEMA


“O Lugar onde vivo”

Os alunos devem ser motivados a produzirem um poema sobre o seu lugar. Ele poderá escolher um título e estar bem à vontade para escrever o seu primeiro poema.
Obs.: Os poemas deverão ser compartilhados entre os alunos e um mural poderá ser feito e afixado na sala de aula.

BUSCANDO SENTIDO

Para ler um texto, não basta identificar letras, sílabas e palavras; é preciso buscar o sentido, compreender, interpretar, relacionar e reter o que for mais relevante, ou seja, o mais importante.
Quando lemos algo, temos sempre um objetivo: buscar informação, ampliar o conhecimento, meditar, entreter-nos. O objetivo da leitura é que vai mobilizar as estratégias que o leitor utilizará, isto é, os meios disponíveis ou condições favoráveis com vista a alcançar os objetivos específicos por ele. Sendo assim, ler um artigo de jornal é diferente de ler um romance, uma história em quadrinhos ou um poema.
Ler textos traz desafios e para vencê-los é fundamental buscar uma leitura cativante, emocionada, enfática.

TODA RIMA COMBINA?

RIMA: é a semelhança sonora entre duas palavras ou a identidade de sons no final das palavras, a partir das vogais tônicas, aquelas que estão na sílaba tônica, ou seja, na sílaba da palavra que é pronunciada com mais intensidade.

OBS.: Quando um poema tem versos de ritmo regular que não apresentam rimas, dizemos que ele se compõe de VERSOS BRANCOS. E um verso que não rima com os demais do poema recebe o nome de VERSO SOLTO.

LEIA A PRIMEIRA QUADRINHA E COMPLETE A SEGUNDA, DE RICARDO AZEVEDO

 

“O cravo brigou com a rosa,
Debaixo de uma sacada.
O cravo saiu ferido,
E a rosa despedaçada.”



“Lá no fundo do quintal
Tem um tacho de melado
Quem não sabe cantar verso
É melhor ficar......................”


a) Quais são as palavras que rimam na primeira estrofe?

b) Quais são os versos soltos da primeira quadrinha?

c) Quais são as palavras que rimam na segunda quadrinha?

d) Quais são os versos soltos da segunda quadrinha?


SÓ PARA LER EM VOZ ALTA E SE ENCANTAR COM A SONORIDADE DO POEMA. FIQUE ATENTO TAMBÉM ÀS RIMAS... TENTE DESCOBRIR SE O POEMA TEM VERSOS SOLTOS. ENFIM, DELICIE-SE.

O poema “Canção do Exílio”, Gonçalves Dias,
está entre os mais famosos do Brasil

Canção do Exílio
(Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como .

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu ;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para ;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por
Sem qu’uinda aviste as palmeiras,
Onde canta o sabiá.

ALGUMAS ATIVIDADES

1. Identifique as rimas nas quadras abaixo:

“Não sei se vá ou se fique
Não sei se fique ou se vá
Ficando aqui não vou lá
E ainda perco meu pique”
(Sílvio Romero)

“Ô seu moço inteligente
Faça o favor de dizer
Em cima daquele morro
Quanto capim pode ter?”
(Ricardo Azevedo)

2. COMPLETE:

a) Os versos podem rimar de diferentes formas. Na primeira quadra, recolhida por Sílvio Romero, o 1º verso rima com o .......... e o 2º verso rima com o..........

b) Já Ricardo Azevedo rima o segundo verso com o......................... verso.

LEIA ALGUMAS QUADRAS DO POETA PORTUGUÊS, FERNANDO PESSOA:

Stella Bianco (1944) “Vaso de flores na janela”
“A quadra é um vaso de flores
que o povo põe à janela da alma” – Fernando Pessoa

“Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu penar”.

“No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar”.

“Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena”.

Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual”.
 
REESCREVA OS PARES DE RIMAS UTILIZADAS NAS QUADRINHAS ACIMA

OBS.: As quadrinhas têm quatro versos, geralmente com sete sílabas poéticas, ritmo típico da poesia popular.

VEJA

“Não / di / gás / mal / de / nin / guém
  1        2     3        4       5      6        7


3. AGORA EU QUERO VER VOCÊ CRIAR AS QUADRINHAS SEGUINDO SEMPRE OS PRIMEIROS VERSOS

a) Essa noite tive um sonho

b) Menina dos olhos tristes

c) Você vive reclamando

d) Um jardim cheio de flores

e) Meu medo de tempestade

f) Você diz que sabe tudo

g) Atirei um cravo n’água

h) Que passeio divertido

i) Uma máquina moderna

j) Na curva daquele rio


Passarinho na janela, pijama de flanela, brigadeiro na panela.
Gato andando no telhado, cheirinho de mato molhado, disco antigo sem chiado.
Pão quentinho de manhã, dropes de hortelã, grito de Tarzan.
Tirar a sorte no osso, jogar pedrinha no poço, um cachecol no pescoço.
Papagaio que conversa, pisar em tapete persa, eu te amo e vice-versa.
Vaga-lume aceso na mão, dias quentes de verão, descer pelo corrimão.
Almoço de domingo, revoada de flamingo, heroi que fuma cachimbo.
Anãozinho de jardim, lacinho de cetim, terminar o livro assim.
(Otávio Roth – Duas dúzias de coisinhas à toa que deixam a gente feliz – São Paulo – Ática – 1994.)

RIMAS EXTERNAS E INTERNAS

Rimas externas 
Aquelas das palavras posicionadas no fim dos versos:


“Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual”.


 Rimas internas 
As de palavras que se localizam no fim dos versos:


- Anãozinho de jardim, lacinho de cetim, terminar o livro assim.
- Passarinho na janela, pijama de flanela, brigadeiro na panela.
- Gato andando no telhado, cheirinho de mato molhado, disco antigo sem chiado.

SENTIDO PRÓPRIO E FIGURADO
(Sentido próprio, ou denotação e sentido figurado, ou conotação)


# SENTIDO PRÓPRIO OU DENOTATIVO – sentido que as palavras costumam ter nos textos informativos. Palavras no sentido regular, autêntico.

# SENTIDO FIGURADO OU CONOTATIVO – sentido da palavra dentro de um contexto, ou seja, quando ela configura outra interpretação que não corresponde à sua real.

LEIA O POEMA DE MACHADO DE ASSIS

Livros e flores

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?


“Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?”

Esta afirmativa se colocada no sentido próprio/denotativo seria absurda, porém, no sentido figurado/conotativo, totalmente normal. A poesia coloca a “leitura” num sentido especial, que pode-se fazer a partir dos olhos de alguém. Trata-se, no caso, de interpretar os olhos da amada para descobrir se eles revelam o que ela sente.

“Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?”

Nesse trecho, são aproximados os “lábios” e “flor”.
Seria possível “beber” nos lábios da pessoa amada o bálsamo do amor? Não, no sentido denotativo/próprio, mas, no conotativo/figurado, sim. Os lábios e o beijo dariam o bálsamo, o remédio para a dor de amor do poeta.

ATIVIDADES

1. INDIQUE O SENTIDO PRÓPRIO/DENOTATIVO E O SENTIDO FIGURADO/CONOTATIVO DOS TERMOS SUBLINHADOS:

"Só que
Bola, papagaio, pião
De tanto brincar
Se gastam
As palavras não:
Quanto mais se brinca
Com elas
Mais novas ficam."


"A poesia
Tem tudo a ver
Com a plumagem, o voo,
E o canto dos pássaros,
A veloz acrobacia dos peixes..."


"A poesia
Tem tudo a ver
A explosão em verde, em flores e frutos."

COMPARAÇÃO, METÁFORA, PERSONIFICAÇÃO

Uma das mais marcantes características da linguagem poética é a utilização da linguagem FIGURADA/CONOTATIVA. Vamos agora tratar de três das mais importantes figuras de linguagem: comparação, metáfora e personificação. Vamos identificar, aprender e empregar esses recursos.

O Leão
(Vinícius de Moraes)

Leão! Leão! Leão!
Rugindo como um trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês

Leão! Leão! Leão
És o rei da criação

Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda
Leão longe, leão perto
Nas areias do deserto
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro

Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação

Leão na caça diurna
Saindo a correr da furna
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação
O salto do tigre é rápido
Como raio, mas não há
Tigre no mundo que escape
Do salto que o leão dá

Não conheço quem defronte
O feroz rinoceronte
Pois bem, se ele vê o leão
Foge como um furacão

Leão! Leão! Leão
És o rei da criação
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não

Leão se esgueirando à espera
Da passagem de outra fera
Vem um tigre, como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranquilo
O leão fica olhando aquilo
Quando se cansam, o leão
Mata um com cada mão
(A Arca de Noé: poemas infantis. São Paulo / Companhia das Letras, 1991. – Autorizado pela VM Empreendimentos Artísticos e Culturais Ltda. ©VM)

COMPARAÇÃO


1. Qual terá sido o motivo de o poeta ter aproximado o rugido do leão ao trovão?

2. “Rugindo como um trovão” – A palavra COMO é um comparativo de

( A ) inferioridade
( B ) superioridade
( C ) igualdade
( D ) imparcialidade

3. A palavra COMO faz uma relação de semelhança entre elementos por meio de termos comparativos, entre os quais: COMO, QUAL, FEITO, QUE NEM, PARECE, etc. Podemos afirmar que estas palavras representam comparativos de

( A ) inferioridade
( B ) superioridade
( C ) igualdade
( D ) imparcialidade

METÁFORA

Há casos em que o escritor elimina o termo comparativo. Por exemplo, em vez de dizer “O leão rugiu COMO um trovão”, ele profere: “O leão é um trovão rugindo”. Quando isso ocorre, temos outra figura de linguagem, a METÁFORA, como nos três primeiros versos da estrofe seguinte:

“Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda”

Repare que o poeta não usou nenhum termo de comparação (como, qual, feito etc.). A transição rápida de “goela” para “fornalha” trás várias sugestões: a visão da boca enorme do leão; o bafo quente que exala da boca do leão, assim como o imaginário de seu crepitar. O mesmo se aplicaria às outras duas metáforas: “labareda” e “navalha”, esta última com a indicação imaginária de ferimento, corte, sangue, etc. Ao aproximar dois termos sem nenhum termo comparativo, a metáfora produz efeitos de sentido que ampliam a significação do texto e as possibilidades de interpretação.

PERSONIFICAÇÃO

LEIA O POEMA DE CASSIMIRO DE ABREU


Meus oito anos

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
De despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfume a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias de minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida na era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
(Lisboa, 1857. Enciclopédia Itaú Cultural – Literatura Brasileira)

COMENTANDO AS EXPRESSÕES EM DESTAQUE

Observe que o primeiro verso é uma metáfora. O modo como as estrelas enfeitam o céu se assemelha a um bordado. Isso é dito sem emprego de termo comparativo.
Nos dois versos finais aparece outro tipo de figura: PERSONIFICAÇÃO. Atribui-se comportamento humano a elementos da natureza.
Ondas e luas dão beijos?

PONDERANDO

As figuras deixam os versos mais significativos. Se o poeta dissesse apenas que “havia muitas estrelas no céu”, “as ondas se aproxima da areia” e “a lua refletia sua luz no mar”, os versos não seriam tão sugestivos e poéticos. Do modo como foi construída a estrofe, a natureza é valorizada pelas figuras de linguagem que indicam dinamismo, vida, contato entre os elementos.

SONORIDADE NA POESIA, SOM E SENTIDO

Vamos ler dois poemas?


Pássaro livre
(Sidônio Muralha)

Gaiola aberta.
Aberta a janela.
O pássaro desperta,
A vida é bela.

A vida é bela
A vida é boa

Voa, pássaro, voa.

***

Haicai
( Ângela Leite de Souza)

Que cheiro cheiroso
de terra molhada quando
a chuva chuvisca!...





ALITERAÇÃO

A = No primeiro poema, além de várias repetições de palavras e de rimas, ocorre também a ALITERAÇÃO, isto é, repetição da mesma consoante.

- Ocorrem aliterações de “b”: aberta, bela, boa e de “v: vida, voa

- Repetem-se os termos “pássaro”, “vida”, “bela” e os versos quatro e cinco “a vida é bela”.

- Aparecem três rimas: aberta/desperta; janela/bela; boa/voa a vogal “e” está presente em duas rimas, prolongando o eco sonoro e propondo associar o sentido das palavras em que está presente.

Estes recursos criam elos entre as partes do poema, associando o voo e a abertura de portas e janelas, isto é, a liberdade de voar – seja por meio de asas, seja por meio do pensamento e da imaginação.

B = No segundo poema ocorre outro tipo de repetição ou recurso de sonoridade: sons recorrentes no início das palavras. O som produzido pela aliteração/consoantes “ch” figura em cheiro, cheiroso, chuva, chuvisca. Associa-se desse modo, o sentido de “chuva” às outras palavras em que o som aparece, com a imagem positiva da água que molha a terra e as plantas.

O buraco do tatu
(Sérgio Caparelli)

O tatu cava um buraco,
À procura de uma lebre,
Quando sai pra se coçar,
Já está em Porto Alegre.

O tatu cava um buraco,
E fura a terra com gana,
Quando sai pra respirar,
Já está em Copacabana.

O tatu cava um buraco
E retira a terra aos montes,
Quando sai pra beber água,
Já está em Belo horizonte.

O tatu cava um buraco
Dia e noite, noite e dia,
Quando sai pra descansar,
Já está lá na Bahia.

O tatu cava um buraco
Tira terra, muita terra,
Quando sai por falta de ar,
Já está na Inglaterra.

O tatu cava um buraco
E some dentro do chão,
Quando sai para respirar,
Já está lá no Japão.

O tatu cava um buraco.
Com as garras muito fortes,
Quando quer se refrescar,
Já está no Polo Norte.

O tatu cava um buraco,
Um buraco muito fundo,
Quando sai pra descansar,
Já está no fim do mundo.

O tatu cava um buraco,
Perde o fôlego, geme, sua,
Quando quer voltar atrás,
Leva um susto, está na Lua.


TRABALHANDO COM O POEMA


1. Observada a regularidade do poema, quanto ao número de versos nas estrofes, dizemos que ele é composto de

( A ) sextetos ou sextilhas
( B ) ternos ou tercetos
( C ) duetos ou dobros
( D ) quartetos ou quadras

2. As rimas se encontram

( A ) entre o segundo e o quarto verso de cada estrofe.
( B ) entre o primeiro e o terceiro verso de cada estrofe.
( C ) entre o primeiro e o último verso de cada estrofe.
( D ) entre o terceiro e o quarto verso de cada estrofe.

3. Qual é o verso que se repete em todas as estrofes?

4. No texto, marque a sequência de ações do tatu após cavar um buraco.

5. O tatu seguiu um trajeto sul-norte, enquanto cavava o buraco. Relacione, pela sequência, os locais percorridos por ele.

OBSERVE O QUADRO e relacione as localidades citadas no poema.


País da Ásia – Satélite Natural da Terra – Minas Gerais – Estado do Brasil – Rio Grande do Sul – Bairro do Rio de Janeiro – País da Europa
 
a) Porto alegre =
b) Copacabana =
c) Belo Horizonte =
d) Bahia =
e) Inglaterra =
f) Japão =
g) Lua =


"O LUGAR ONDE VIVO"
VAMOS CONHECER UM POUCO O LUGAR ONDE OS CARIOCAS VIVEM?


Milagre no Corcovado
(Ângela Leite de Souza)

Todas as noites
De céu nublado
No corcovado
Faz seu milagre
O Redentor:
Fica pousado
No algodão-doce
Iluminado
Como se fosse
De isopor.

Mas todos sabem
Que bem de perto
Esse Jesus
É um gigante
De mais de mil
E cem toneladas...
Suba de trem,
Vá pela escada,
Quem chega lá,
Ao pé do Cristo,
Vira mosquito.

E olhando em volta
Para a cidade
De ponta a ponta
Maravilhosa
A gente sente
Um arrepio:
O milagre
É o próprio Rio!


TRABALHANDO COM O TEXTO

OUTRO POEMA


Cidadezinha
(Mário Quintana)

Cidadezinha cheia de graça...
Tão pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça...
Sua igrejinha de uma torre só...

Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca nem um segundo...
E fica a torre, sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!...

Eu que de longe venho perdido,
Sem pouso fixo (a triste sina!)
Ah, quem me dera ter lá nascido!

Lá toda a vida pode morar!
Cidadezinha... Tão pequenina
Que toda cabe num só olhar...

EXERCITADO DE NOVO

1.     O tema do poema tem como finalidade

( A ) fazer um retrato da cidade.
( B ) falar da igrejinha de uma torre só.
( C ) incentivar o poeta a se mudar para a cidadezinha.
( D ) comparar a cidadezinha com o vasto mundo.

2.    O poema tem o tom sonoro

( A ) alegre
( B ) feliz
( C ) melancólico
( D ) agitado

3. Releia o texto e reescreva, nas linhas abaixo, a descrição da cidade, do poema de Mário Quintana.

4. A Cidade do texto e a cidade em que você mora são parecidas ou diferentes? Justifique sua resposta. 

5.     O poema é composto de

( A ) quatro estrofes.
( B ) quatro estrofes desiguais.
( C ) quatorze estrofes iguais.
( D ) quatorze estrofes desiguais.

6.     As estrofes do poema são formadas de

( A ) um quarteto e três tercetos.
( B ) um terceto e três quartetos
( C ) dois quartetos e dois tercetos
( D ) dois quartetos e um terceto

7.    As rimas dos quartetos se encontram

( A ) nos versos pares.              ( B ) nos versos ímpares.

8.   Nos tercetos, as rimas aparecem

( A ) nos versos 1 e 3
( B ) nos versos 1 e 2
( C ) nos versos 2 e 3

9.    Podemos afirmar que o ritmo do poema é

( A ) irregular e sem cadência.
( B ) regular e cadenciado.
( C ) atravessado e irregular.
( D ) sem ritmo e desarmônico.

10.  “Nuvens que venham, nuvens e asas. Não param nunca, nem um segundo...” – Estes versos sugerem

( A ) estagnação.
( B ) paralisação.
( C ) movimento.
( D ) grandeza.

11. Qual elemento do poema sugere a imagem de altura?

12. Quem é que fica “cismando”?

13. Qual é a figura de linguagem empregada neste caso? 

14. “Tão pequenina que cabe num só olhar”. – A que distância o poeta contemplou a cidade e como você descobriu isso?

15. Identifique se as afirmativas abaixo apresentam semelhanças ou diferenças entre os poemas “Milagre no Corcovado” e “Cidadezinha”:

a)   Texto poético:
b)   Composição em versos e estrofes:
c)   Emprego de figuras de linguagem:
d)   Emprego de metáfora e comparação:
e)   Emprego de personificação:
f)    O tema:
g)   O tom:
h)  O tom melancólico do poeta:
i)    O tom entusiástico do poeta:
j)    Visão à distância:
k)   Descrição de monumento alto:
l)     O amor à cidade retratada:
m)  Título:
n)   Organização em versos, agrupados em estrofes:
o)    Apresentação de rimas, ritmo marcado e repetições:
p)    Termo no diminutivo:
q)    Uso da descrição:

ANOTE

Alguns poetas cantam lugares que visitam ou onde residiram por um tempo. Manuel Bandeira, por exemplo, tem na sua infância um dos seus temas preferidos; como ele a passou no Recife-PE, essa cidade está muito presente em seus poemas. Da mesma forma, a vivência interiorana e a paisagem de Minas Gerais marcam a obra de Carlos Drummond de Andrade. Já na obra de Mário de Andrade, figura emblemática do modernismo brasileiro, a paisagem frequente é a cidade de São Paulo.

Confidência de Itabirano
(Carlos Drummond de Andrade)

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas...

Alma Cabocla
( Paulo Setúbal)

E, na doçura que encerra
Esta simpleza daqui,
Viver de novo, na serra,
Entre as gentes desta terra
A vida que eu já vivi...

FINALIZANDO...

Os poemas podem tratar de qualquer assunto. Um deles é a cidade em que se vive.
A escolha do assunto é apenas o primeiro passo. É importante que, ao produzir o poema, o autor se lembre das características desse gênero e as empregue no texto.
Chegou a hora tão esperada!
Vocês irão produzir individualmente o poema para o concurso. Mas antes, vamos conhecer mais um poema.


O Lugar onde Vivo

Minha cidade é bela
É mesmo especial
Eu gosto muito dela
É tudo muito legal

Lá tem muita coisa legal
Alegria e felicidade
Outra não tem igual
Assim é minha cidade

ALGUMAS ALERTAS ANTES DA PRODUÇÃO DO POEMA

ELIMINE OS TERMOS DESNECESSÁRIOS DAS QUADRINHAS PARA DEIXAR MAIS ELEGANTE O ESTILO.

# O que acham do título? Por meio dele é possível imaginar como é esse lugar? O título do poema repete o tema proposto: “O LUGAR ONDE VIVO”. Se o autor procurasse um título mais sugestivo, o poema ganharia mais qualidade.

# O autor consegue mostrar como é o lugar onde vive? Seria possível apresentar sugestão para aperfeiçoar o retrato apresentado no poema?

# Neste poema, o autor não consegue mostrar ao leitor o lugar onde vive. Seria preciso transformar os versos, mostrando como é esse lugar. Informações do autor sobre o   lugar de que fala.

# O autor usa duas vezes a palavra “legal”. Esse pode ser considerado um exemplo de repetição criativa?

# A repetição pode ser recurso que dá ritmo ao poema. Mas, nesse caso, parece que a palavra foi repetida porque o poeta não vislumbrou alternativa. Ele deveria ter buscado outras palavras. Do modo como está, a descrição fica incompleta, o leitor não consegue imaginar como é a cidade nem fica com vontade de conhecê-la.


“A escola onde estudo
É Imaculada Conceição
Que muito tem se empenhado
Em cumprir sua missão”


PRODUÇÃO DO TEXTO

Tema: “O Lugar onde Vivo”

EXPOSIÇÃO AO PÚBLICO

OBS.: Recomendado para alunos de 5º e 6º anos.

Resumo e atividades extras: Gladiston de Araújo

(Resumo do Caderno original do Professor da Olimpíada da Língua Portuguesa/2010, com atividades extras criadas por Gladiston de Araújo)

Nenhum comentário:

Postar um comentário