A Capelinha de Nossa Senhora das Graças foi erguida
por volta de 1.939 numa inusitada história de redenção e fé de dois forasteiros:
um aventureiro misterioso com fama de mau e uma artesã de origem negra,
católica devotada.
A região dos sertões, posteriormente
denominada “das Minas”, nativamente ocupada por populações indígenas, já era
muito conhecida dos Bandeirantes. Os diversos caminhos que davam acesso ao
interior da Colônia eram trilhados periodicamente, seja em busca de índios para
serem escravizados, seja à procura de ouro e pedras preciosas. A região hoje
conhecida como Vale do Jequitinhonha foi uma das primeiras a ser ocupada em
Minas Gerais. Sua história remonta às primeiras Entradas, mas foram o ouro e as
pedras preciosas que jogaram um papel primordial na estruturação de seu
território.
Com a instalação dos quartéis ao longo do Rio
Jequitinhonha, no início do Sec. XIX, por determinação da Coroa, a região do
baixo Jequitinhonha foi largamente explorada principalmente com a chegada do
Alferes Julião Fernandes para comandar a sétima divisão nas margens do Córrego
São Miguel, hoje onde se localiza a cidade de Jequitinhonha. Com a caça aos
nativos para serem escravizados, muitos caciques e tribos fugiram pelas matas
onde se estabeleceram e formaram novos povoamentos. Por volta de 1902, o
precursor Manoel Albino iniciou a construção de uma capela em louvor a São
Sebastião, no terreno onde atualmente localiza-se a atual Igreja de Nossa
Senhora do Rosário, oficializando desta forma, a fundação do povoado denominado
Comercinho do Rubim do José Ferreira e tendo o Santo como seu padroeiro. A
partir dai, a ocupação do povoado foi logo iniciada com a chegada dos primeiros
moradores e forasteiros. As noticias da existência de pedras preciosas e ouro
na região do Jequitinhonha se espalhou rapidamente pelas redondezas,
principalmente pelo sul e sudoeste da Bahia e, assim, varias lavra para procura
da cobiçada pedra azul foram sendo abertas praticamente por todo território
originando, inclusive, a formação de novos pequenos povoamentos. Foi nesse
contexto que chegou ao então pequeno povoado o Sr. José Gomes Melo: vindo
ninguém sabia de onde; indo ninguém sabia para onde!
É dúbia e controversa as estórias, lendas e
casos contatos durante todos esses anos sobre a personalidade e a vida de Jose
Gomes Melo, um mito para a época.
"Para mim e para a
criançada da minha época, Melo não era o facínora perigoso, frio e calculista
que respondia a processos. E nem o fugitivo espetacular que se metamorfoseava
quando perseguido e que se dizia ser ele. Melo era sim, para nós, um herói
imbatível que se tornara figura lendária. Um herói que combatia tenazmente os
poderosos em favor dos oprimidos e injustiçados". (LOBO, 1994, p. 228)
No imaginário popular aquela figura desconhecida e misteriosa
estava fugindo da polícia ou havia cometido crimes por onde passava. Os garotos
o idolatravam pela coragem e bravura, era um verdadeiro herói; os poderosos o
temiam, tinha medo de que José Gomes de Melo cometesse novos crimes no lugar.
Mas o que se revelava depois, segundo relatos de antigos moradores que
conviveram com ele, é de que era um homem branco, bem vestido e de boa
aparência, brincalhão e muito simpático, longe da figura medonha de bandido
temeroso e foragido. Ainda segundo relatos de moradores, José Gomes de Melo
veio do nordeste do Brasil, um lugar distante e que havia deixado família e
filhos na Bahia.
Logo em seguida a sua chegada, José Gomes de Melo conseguiu
trabalho nas lavras de um senhor chamado Sebastião Felizardo, explorador de
minas de pedras preciosas na região. Era bem quisto no meio social ate então,
era cordial, gentil e de muita educação principalmente com as senhoras.
Felisburgo, ou o então Comercinho do Rubim do José Ferreira, estava em
desenvolvimento e a extração mineral e a agropecuária se destacavam como
principais fontes econômicas. Trabalhando fervorosamente nas lavras, dia e
noite, José Gomes de Melo sonhava em "bamburrar", na linguagem dos
pedristas significava encontrar um salão onde na rocha onde provavelmente
estariam as pedras azuis. A obsessão dele pelas pedras reforçou ainda mais o
mito de facínora, perigoso e de foragido da justiça. Assim nasceu a promessa de
José Gomes de Melo que, se "bamburrase", isto é, encontrasse as
pedras preciosas, sairia correndo morro acima e onde cansasse pararia exausto,
e ali fincaria uma cruz para sinalizar o local onde ele ergueria uma capela em
homenagem a Nossa Senhora das Graças, como gratidão da benção alcançada.

Ainda segundo relato da Sra. Maria Neusa
Brandão, José Gomes de Melo não chegou a iniciar a construção da Capela. Após
se tornar afortunado da noite para o dia, provavelmente se envolveu em brigas e
intrigas que o fez desaparecer do povoado do mesmo que surgiu: do nada, como já
dizia a lenda! Um rapaz de nome desconhecido o acompanhou nessa fuga e que
tinha um irmão que trabalhava numa fazenda no Município de Carlos Chagas, o que
fez com que todos imaginassem que tivessem fugido para lá. Em 1957, o mesmo
rapaz que acompanhou José Gomes de Melo retornou a Felisburgo anunciando o seu
assassinato lá pelas bandas de onde foram morar. A notícia da morte de José
Gomes Melo despertou tristeza no povoado era agora lembrado como homem bom,
agradável e sociável com todos. Mestra Cirila uma devota religiosa foi quem
tomou a iniciativa de retomar a promessa do homem morto e erguer, como
prometido por ele, na Serra Morena, a Capelinha de Nossa Senhora das Graças.
Assim como José Gomes de Melo, Mestra Cirila também era uma
forasteira e havia chegado há mais tempo no povoado. Nunca se soube de
onde ela veio, soube-se apenas que antes de pousar em Felisburgo, morou algum
tempo na cidade vizinha de Jequitinhonha; nem mesmo teve um sobrenome, Era
simplesmente Cirila. Era um negra forte, pobre e solteira que fazia artesanato
e esculturas. Suas esculturas eram famosas como também seu presépio permanente
que ficava na sua casa, montado durante todo o ano. Mesmo com suas origens
desconhecida e humilde entrou para a história de Felisburgo impondo sua
cidadania e tornando uma das mulheres mais influente e respeitada no povoado.
Segundo pode se concluir nos relatos da população mais antiga que a conheceu,
tinha um viés barroco, dramático e exagerado na sua personalidade, o que foi
determinante na sua luta para a construção da Capelinha. Mestra Cirila, tomada
de fé e piedade, iniciou uma campanha para que fossem doados materiais para a
construção do templo.
Sem perder uma procissão, fazendo-se presente em todos os atos
religiosos celebrados em Felisburgo, “Tia” Cirila ficava louca para que
chegasse o fim do ano para homenagear e render graças ao Salvador do Mundo,
erguendo uma réplica da famosa estrebaria que lhe servira de berço. (LOBO,
1997)
E de porta em porta, casa em casa, Mestra Cirila
foi pedindo ajuda para a construção. Conseguiu com o Sr. Adelino Brandão um
burro para que pudessem carregar o material até o local da obra na Serra
Morena. Com a ajuda do pedreiro André Preto foram iniciadas as obras da
construção. Ainda segundo a Sra. Maria Neuza Brandão, Mestra Cirila também
pegava na colher, isto é, era pedreira e ajudante da obra também. Quanto mais a
população e comerciantes viam a capela sendo erguida, movidos pela fé e força
da Mestra Cirila, mais se dispunham a ajudarem doando materiais, alimentos,
etc. A distância do local ate o centro do povoado e a topografia íngreme do
terreno eram uma grande dificuldade para prosseguirem a obra. Mesmo assim, em
1939, estava pronta a Capelinha de Nossa Senhora das Graças ou como dizem
alguns, a Capela do Melo, referindo ao seu mentor, José Gomes de Melo.
Aos poucos as pessoas que visitavam a capelinha
foram doando santos de devoção que ao lado da santa padroeira ornamentavam o
altar. Do lado esquerdo da Capelinha, na época de uma grande seca que arrasou
toda a região, foi colocada tem uma cruz de concreto. As pessoas pediam em suas
orações para que chovesse e, faziam penitência levando pedras na cabeça que
eram depositadas no pé do cruzeiro. Este rito permanece até os dias de hoje. A
Capelinha de Nossa Senhora das Graças da Santa Fé é visitada durante o ano
inteiro, mas recebe o maior número de peregrinos e turistas na Sexta-feira da
Paixão, ocasião em que o a comunidade sobe o morro celebrando a Via Sacra.
A localização privilegiada, a topografia e a
paisagem deslumbrante, contribuíram para que aquele templo singelo viesse a
ser, além de um marco religioso, um ponto de referencia social e turístico da
cidade, pois proporciona aos visitantes uma visão espetacular da cidade e de
parte da zona rural do Município. Era comum, muito tempo atrás, crianças irem
brincar na capelinha e lá ficarem sentadas ou deitadas na escadaria a
observarem sem pressa a paisagem local e Felisburgo além dos seus horizontes.
Um semanal local da Câmara Municipal de Felisburgo publicou um artigo que
terminava assim: “[...] assistir um pôr do sol, sentado na soleira da Capelinha
Nossa Senhora das Graças, vendo a cidade de Felisburgo do alto... É o máximo!
Sem igual."
Mestra Cirila, como artista e artesã, foi também a
responsável pela ornamentação e organização da Capelinha. Era um espaço usado
também por ela para mostrar suas peças sacras e esculturas. Em uma dessas
visitas instalou no lado direito da fachada da Capelinha um espelho emoldurado
com madeira que até hoje se discute qual seria a razão e a finalidade daquela
peça. Com seu espírito artístico, pode-se supor que ela, tendo observado
o nascer do sol, imaginou que um espelho poderia refletir a luz solar e lança-la
sobre a cidade, fazendo a Capela ser notada pela população durante o dia. Outra
versão é a de que tendo a Capelinha se transformado num ponto de encontro de
crianças e para brincarem o espelho passou a servir para que as mesmas
observassem a cidade através dele. É comum a todas as crianças daquelas
gerações as lembranças de já terem visto Felisburgo através do espelho da
Mestra Cirila.
Em 22 de junho de 1960, através de uma
declaração pública registrada em cartório, o Sr. Candido Moreira Silva e sua
esposa D. Vergolina Moreira de Oliveira, doaram o terreno onde se localiza a
Capelinha Nossa Senhora das Graças, determinando uma área de oitenta metros
quadrados no documento. Felisburgo teve sua emancipação em 01 de março de 1963
quando o primeiro intendente do Município, cargo equivalente
ao de prefeito, Dário Félix Ferreira e a partir de então o poder público
começou a cuidar mais da preservação da Capelinha de Nossa Senhora das Graças.
Cirila morreu em 13 de junho de 1976, e
atualmente a Fazenda Santa Fé onde se localiza a Capelinha de Nossa Senhora das
Graças pertence ao Sr. Florisluce Alves de Souza e continua sendo a maior
referência histórica da religiosidade de Felisburgo.

A Capelinha de Nossa Senhora das Graças é um
exemplar da arquitetura religiosa da primeira metade do Séc. XIX, seu estilo
flerta com o neocolonial remetendo á arquitetura rural brasileira. Encontra-se
isolada, situada em ponto elevado de uma colina chamada Serra Morena, em
posição de grande visibilidade e destaque quando vista de vários pontos da
cidade de Felisburgo. A sua implantação se faz de forma dominante num pequeno
platô com a fachada principal direcionada para o sudoeste. Do centro da cidade,
o acesso á Capelinha se faz através da Rua Deputado José Honório, que na sua
extensão alcança-se uma estrada de terra, já na zona rural, de topografia
íngreme ate a escadaria da capela. O entorno imediato da Capelinha de Nossa
Senhora das Graças é a área rural da Fazenda Santa Fé, rodeada de vegetação
rasteira tipo gramíneas e arvores de pequenos e médios portes. Existe rede de
instalação elétrica com postes. Devido à sua situação em plano elevado e à
ausência de construções do entorno, a Capelinha apresentas-se como excelente
ponto contemplação, de onde se pode perceber o movimento descendente-ascendente
das colinas e de toda a cidade e seus limites.
Fonte: Arquivos do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Felisburgo
GALERIA DE FOTOS