domingo, 6 de maio de 2018

NOITE LITERÁRIA "Ribeirão Pirosca" - III FEST AGUA

POEMAS PREMIADOS NA NOITE LITERÁRIA "Ribeirão Pirosca" - III FEST ÁGUA - Festival da Cultura Popular de Felisburgo em Consonância com o Meio Ambiente - A Cultura a Serviço da Biodiversidade. - 28 de abril de 2018 

 

1° Lugar

DESCANSE EM PAZ
(Herena Barcelos - Itinga-MG)



Do Rio Doce, De Mariana,

De Minas, do Brasil, do Mundo.

Procura-se os culpados

Da sujeira que cobre

Nosso presente.

Perdoados nossos pecados.

Pois, embora sempre ausentes,

Ainda agora, desavisados,

Estávamos devidamente enlutados

Por nossos rios secos.



Sufocou-se a esperança.



Agora é a lama podre

De resto de ferro e ganância

Que vai corando os leitos,

Empurrando no peito o que encontrar.

Assusta o grito das águas,

Mas é pior a corrente do silêncio,

Que leva a tristeza pro mar.

Uma oração para os corpos inocentes

Que existem agora sem alma, sem cura,

Sem gente, sem vida, sem viço,

Sem peixe, sem barco, sem rede.

A dúvida, já não futura:

O que será da nossa secura,

Se mesmo os rios que inda correm,

Agora, morrem de sede

2° Lugar

Paisagem da Morte
 (Vicentino Rodrigues - Itinga-MG)

O sol castiga a terra.
Leitos de areia,
Natureza pálida,
Semente prisioneira.

Cheiro de carniça,
Atalhos de ossadas,
Gado na maiada agoniza.
Pássaros partem em revoada.

Cruz na beira da estrada
De quem cumpriu sua sina,
Casa velha, abandonada.
Rastros se misturam na caatinga.

A morte é andarilha desinquieta.
A fome faz ronda no sertão.
A partida sem rumo é incerta,
Pois ainda restam raízes nesse chão.

3° Lugar 

Princesa Do Sertão
(Felipe Cortez - Taiobeiras)

O seu choro ecoou pelo serrado
Quando a água do riacho secou
E o céu azulado
Sob o sol escaldante
Ceifando a vida
Roubando sua cor

Entre arvores de galhos retorcidos
O gado está magro
E a plantação
Já se perdeu

Os seus pés estão cansados
Empoeirados pelo chão
Que já não celebra a vida
Desemboca Rio Pardo
Desemboca Rio Doce
Pra nunca mais voltar

Chora Mariana
Enche a Cantareira
Caminho de boto é descaminho
Nas águas do Andirá

Peixe no anzol,
Desconjuro no fundo do furo
Homem inventa fim pra si

OUTROS POEMAS DA NOITE LITERÁRIA "Ribeirão Pirosca"

Clamor à Fonte da Vida
(Bárbara Oliveira - Felisburgo)


Hoje enquanto passeava

Ouvi um grito que ressoava

Era minha mãe verde

Me dizendo estar com sede

E perguntando onde me encontrava



Disse: Mãe, eu estava aos prantos me derramando

Então ouvi a senhora me chamando

Mãe, já não vejo as minhas margens

Nem reflito as mesmas paisagens

Estou me acabando...



Ela disse: Filha, teu choro é em vão!

Então porque essa tempestade no coração?

Nas terras onde passo

Já não vejo mais o barco

Do poeta que o remava a mão



Então já não via também a beleza

E já não tinha a certeza

Que não o veria mais remar

Estou me acabando, quem vai me consolar?

Mãe natureza?



Ela disse: Eu me reciclo,

E você água, só pode seguir o teu ciclo.

Pois se tu parar

Tudo vai se acabar,

Continue mesmo que seja um microciclo



Vá, continue sua trajetória

Esses momentos guarde na memória!

Pois se um dia teu ciclo morrer

Todos, até eu vou perecer

Repensando a filosofia humana de salvar,
E refazer a presente história.



Acinzentaram o mundo.
(Daniel Davíe Pereira - Medina-MG)

Nas planícies cinzentas,
Nos mares sem mar..
Na lua ensolarada,num sol de luar...
Na vida de idas...nas paz de brigas...
No mundo desbotado,sem cor ou ar,sigo cambelando,de tristeza vou voar.
Mas cadê as asas,seu dotô?
Como é que eu vou...só sei que vou ..vou caminhar

Nas ondas de lamas
Nas areias que ardem,
Nos barcos sem rios,
Nas fontes sem água
Vidas de desafios
Seu Dotô,eu vou..
Como é que eu vou?? ...só sei que vou ..vou caminhar

Ar....ar...ar.. ar...!!!!
Eu vou..seu dotô eu vou...eu vou caminhar
Ar.. ar...ar...ar...!!!

Nas noites claras de sol...agora caem dos céus,as estrelas estão soltas...não vejo nuvens,não há sombrear...
Não vejo animais vivos,nem presenças “secular”...só mortes e dores
Podridão e horrores
Seu Dotô,eu vou..
Como é que eu vou?...só sei que vou ..vou caminhar

Eu vô..eu vô..seu dotô
Seu dotô eu ,eu vou tentar caminhar

Caminhando a galope,nos quatros cantos do mundos a só lamentar,
Vidas finitas,choro e rangeres de ossos
Silêncio infernais dos pássaros
Eu no meu pranto,enlouqueço e canto
Como é que eu vou?...só sei que vou ..vou caminhar
Eu vô..eu vô..seu dotô
Seu dotô eu ,eu vou tentar caminhar

Foste essa a herança que deixaste,um mundo sombrio e negro
Sem verdes ou cores,acinzentando-nos minuto a minuto,
Quem culpa temos seu Dotô??... que culpa temos??
Mas, eu vou,eu vou seu Dotô, seu que vou caminhar...
Sei que vou caminhar...
Sei que vou
Sei que
Sei...
 

 ECO LÓGICO
(Emídio Adalberto - Itinga-MG)

 
Se aos pássaros perguntares.
Quem polui os nossos ares,
onde os pulmões se consomem,
o eco, lógico, responde:
... homem... homem... homem...
E o húmus de nosso chão,
que resta pro nosso pão
logo após uma queimada?
O eco, lógico, responde:
... quase nada... quase nada...
O que era o Saara?
A Amazônia o que será?
Um futuro muito incerto?
O eco, lógico, responde:
... só deserto... só deserto...
O que reta, desmatando,
o que sobra, devastando,
ao homem depredador?
O eco, lógico, responde:
... só a dor... a dor... a dor...
Que precisa a natureza
pra manter sua beleza
e amainar a sua dor?
O eco, lógico, responde:
... mais amor... amor... amor...


A metade do produto do meio
(Luana Souza Viana - Felisburgo)

Quero te falar sem ofensas de um negócio
Eu sou matuto mas, um bom “poeteiro”
Não é venda, não é compra, mas é coisa de sócio.
Meu bem, nem tudo na vida envolve dinheiro.

Você tem medo de onça e de cobra
Não pechincha, paga caro no produto de couro.
Porque tem ganância e vaidade de sobra
Para a tal elite ostenta como se fosse ouro

E digo mais, tem coisas que não convém.
É tanta avareza, luxúria e desperdício.
Seu fim será na cova como um Zé ninguém
Aqui onde se vive mais parece um hospício

Este seu Meio já nem é tão verde assim
Pintaste as paredes de tantas cores
Preocupaste com tantas dores
Egoísta não conhece o meio do jardim

Por fim, veste pelo e usa jóias de Marfim.
Tantos luxos, futilidades e bens materiais.
Tudo em vão, tudo em troca de dim dim
Desconhece flores e outras belezas naturais

Acerto de contas
(Mário Monttinny - Jequitinhonha)

Água , Água
Terra seca
Não seja carrasca,
Oh mãe natureza, escute minha peleja.
Salva, Água.

Eu falei contigo
Era o trato amigo
Mas você não quis cumprir
Eu cuidava de você
Você cuidava de mim

Olhe bem sua memória
Reveja sua trajetória
Olha o troco que me deu

Pegou fundo a sua ganância
Você que saiu das minhas entranhas
Mostrou que nunca se importou
Maltratou-me
Eu pedia socorro
Socorro
Pareceu ser pouco
Você fingiu não ouvir

Meu rio doce, você fez amargo
Meus pés de árvore , você fez descalço
Não pensou no caso
Feriu a mim.

Arrancou minhas plantas
Meus filhos , passarinhos
Você os tirou do ninho
E quando não os queimava, em uma jaula os trancava
Mas trancava a mim.

Meu verde virou preto
Vejo-te agora em desespero
Eu mostrei que estava fraca
Que tudo que não se cuida, acaba
E acabou aqui

Parabéns bicho homem
O que tudo de bom consome
Você consumiu a mim
Agora é seu fim
Não tem mais jeito
Beba seu dinheiro , beba seu desprezo
Pois foi por eles que você me trocou.
 

 

Um rio
(Octacílio Mendes - Itinga)



Jequitinhonha a caminho do mar

Leva saudades que estão a rolar.

Leva cantiga

Em prosa e em verso.

Leva as tristezas, o universo.

Suas águas tranquilas

Passam serenas

Por entre Itinga,

Banhando o povo.

Águas de vida,

Repassa de novo.



As águas que passam

São lágrimas que rolam

De sofrimento, de fome que assolam.

A água produz e faz sempre

Guiar o povo do Vale

Que vive a mudar.



À noite em seu leito estão a descansar

As poucas onhas

Que o mercúrio não conseguiu matar.



Pela manhã no cais de Itinga

As professoras e sua rotina

Cruzam o rio e vão trabalhar,

Educam pessoas, homens do futuro,

Que acabam fazendo

O rio mais escuro.



Saudades eu tenho

Da areia branca.

Da relva, das árvores

E da preta lama

Que agarra nos pés

E faz xingar,

Mas é muito bom ter

Um rio para nadar.


Pulmão de nossa nação
(Thiago Augusto - Felisburgo)


Árvore florida
Na selva nascida de nossa nação
Ensina-nos a olhar o futuro
Refletindo no presente a preservação

Olhando em frente, eu vejo gente
Serra na mão, árvore no chão
Doí-me,parti-me o coração
Em ver da mãe terra arrancado
Por um duro machado
Mais um vivo pulmão.

Olhando o destino mais a frente,
 Vejo aquela mesma gente
Dele reclamar.
Na seca que castiga,eo calor que maltrata,
No meio do resto da mata,no velho rio que se arrasta
Não posso mais meu barco singrar.

Escutai minha gente!
“Nossa terra em dores de parto está”
Desarme tua mão
Tire de ti a devastação
Que afeta, mata, maltrata, esculacha teu coração.

A natureza mãe não tem culpa
De seres tu, tão pobre, tão frio, tão homem vazio
Sem vida, sem humanidade, sem vista, sem verdade
Pare de matar!

Matar a vida que respiras, que bebes,
Setens coragem a leves
Tudo precisa de ti
E enquanto tiveres aqui
Tudo precisará.
Use tua vida para acolhida
Não deixa de zelar
Zelar o bem, sem ver em quem um dia ele pode esbarrar
Cuide, alimente o meio ambiente que por ti ñ para de clamar:
­­­-socorro homem!Homem!
Não precisas me matar. Aquele que me criou
Um dia em ti soprou nas narinas para de mim cuidar.
 Dou-te tudo, de tudo em mim podes
Nas aguas te banhas, te lavas,podes te saciar
Na terra, se erra, se planta, se janta, se vive e se enterra.
Do ar respiras
E pensas nele habitar.
Então, por que me agrides? por que queres me matar?
 



terça-feira, 9 de janeiro de 2018

HISTÓRICO DA IGREJA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DE FELISBURGO




 "Senhora do Rosário, sua casa cheira..."

Com a instalação dos quartéis ao longo do Rio Jequitinhonha, no início do Sec. XIX, por determinação da Coroa, a região do baixo Jequitinhonha foi largamente explorada principalmente com a chegada do Alferes Julião Fernandes Leão Taborda para comandar a Sétima Divisão Militar, onde hoje se localiza a cidade de Jequitinhonha. O Alferes Julião se instalou à margem direita do Rio Jequitinhonha, em 1811, e, sua primeira tarefa foi levar a sua fé cristã às inúmeras tribos de índios que habitavam aquelas paragens e para isso trouxe em sua comitiva o Frei Domingo Casallis que construiu varias igrejas nos diversos povoados intensificando, assim a catequização dos gentios em toda a região. Com a caça aos nativos para serem escravizados e evangelizados, muitos caciques e tribos fugiram pelas matas onde se estabeleceram e formaram novos povoamentos durante o século XIX, desbravando as matas fechadas do Jequitinhonha.

As missões de padres estrangeiros para levar a catequização e o evangelho foi intensa no inicio do século XX no Vale do Jequitinhonha. Tidos com selvagens e indomáveis, os nativos necessitavam da fé religiosa e do poder divino para que se tornassem civilizados. Até mesmo os forasteiros, que vinham de terras distantes à procura de pedras preciosas ou terras férteis, eram rudes e sem educação. Com o surgimento dos pequenos povoados em tornos dos quartéis militares, tornou-se necessário que mais missionários e devotos fossem deslocados para a região. 




O Povoado de Comercinho do Rubim de José Ferreira, atual cidade de Felisburgo, foi originado por fugitivos dissidentes do Quartel do Alferes e nativos que não aceitavam a escravidão dos portugueses, e não fugiu à regra de receber religiosos franciscanos para professarem a fé católica. Por volta de 1902, o precursor Manoel Albino iniciou a construção de uma capela, onde atualmente localiza-se a Praça São Sebastião e ao lado da Igreja Nossa Senhora do Rosário, para que pudessem receber os padres para as celebrações. Em 1903, foi celebrada a primeira missa local pelo padre Frei Emereciano Alves de Oliveira, pároco da Paróquia de São Miguel em Jequitinhonha, oficializando a fundação do povoado. Por volta de 1910, a casa de oração recebeu o nome de Capela de São Sebastião que também se tornou o Santo padroeiro do município.

Entre 1910 e 1911 foi construído o Oratório de Nossa Senhora do Rosário, no mesmo local onde atualmente encontra-se a Escola Municipal Euplínia Magalhães Barbosa na Praça Tranquilino Pinto Coelho. A Capela de São Sebastião foi reformada posteriormente pelo Frei Samuel Tetteroo que deixou mais dois projetos de igrejas antes de partir: uma maior provavelmente para abrigar o Santo Padroeiro São Sebastião, mas que veio se transformar na Igreja de Nossa Senhora do Rosário; e a outra para São João Baptista.

Essa situação foi sendo modificada com a criação da primeira diocese mineira, a de Mariana, em 1745, mas somente a partir de 1854, com a criação da diocese de Diamantina, a administração eclesiástica dessa região [de Minas Novas] foi desligada de Salvador.

Em 1910, foi criada a diocese de Montes Claros e, em 1913, a de Araçuaí, ambas desmembradas de Diamantina. (SOUZA, 1999)

Embora a criação da diocese de Araçuaí, em 1913, significasse uma grande transformação administrativa na região, em São Miguel do Jequitinhonha e outros povoados da mata, a presença eclesiástica já se apresentava com grande força desde as primeiras décadas de ocupação do espaço, até mesmo em período anterior à criação da freguesia de São Miguel do Jequitinhonha, aparentemente decorrida em 1830.





Foi inestimável a contribuição do Frei franciscano holandês Samuel Tetteroo ao desenvolvimento das comunidades dos pequenos vilarejos em formação. Nascido na Holanda em 1875, pertencente á Ordem dos Frades Menores, desembarcou na cidade de Jequitinhonha no dia 4 de março de 1912 e nesse mesmo ano, o bispo de Diamantina, Dom Joaquim Silvério de Souza, ofereceu aos frades franciscanos a Paróquia São Miguel de Jequitinhonha. Desde 1870, o Padre Emereciano Alves de Oliveira era quem estava à frente daquela Paróquia, já idoso, tinha 40 anos de serviço paroquial e já aparentava cansaço. Os frades, dentre eles Samuel Tetteroo, estabeleceram sua residência na cidade vizinha de Joaíma distante 30 km de Jequitinhonha e foram instruídos a iniciarem suas atividades apenas como coadjutores e, assim, evitariam atritos com o velho pároco. Estava escrito num relatório de Frei Samuel: “Lá fora nas matas, aonde o vigário não ia mais, poderíamos trabalhar livre e independente; em São Miguel, porém, exercíamos nossas funções sacerdotais somente a pedido do vigário”. O Padre Emereciano, muito doente desde 1917, faleceu em novembro de 1920 e os frades puderam assumir definitivamente o encargo pastoral da Paróquia de São Miguel.

Já prestando seus serviços pastorais em Felisburgo e notando o desenvolvimento do povoado que cada vez aumentava o número de fiéis, Frei Samuel Tetteroo providenciou logo um projeto de uma igreja maior do que havia previsto para as novas capelas. No dia 10 de setembro de 1913, Frei Júlio Berten, Comissário da Santa Cruz (1911-1922) enviou Frei Feliciano Smitz para ajudar Frei Samuel Tetteroo no trabalho de evangelização na região do Baixo Jequitinhonha. Frei Samuel permaneceu por dez anos no Brasil exercendo atividades pastorais até o dia 9 de abril de 1916 quando retornou à Holanda para visitar família. Muita gente lastimou a sua partida e rezavam para que Frei Samuel voltasse em breve. Mas nem todos estavam tão bem dispostos a recebê-lo de braços abertos, isto porque Frei Samuel era um tanto zeloso mas também muito rigoroso com os muitos abusos que imperavam entre a população tão pouca civilizada e instruída na fé, nunca deixando de repreender quem fosse preciso. Em dezembro de 1916, quando retornava ao Brasil, foi avisado na cidade de Teófilo Otoni, através de uma carta escrita pelo Frei Júlio Berten, Comissário da Santa Cruz, para que não regressasse para a Paróquia de São Miguel, pois havia deixado muitos desafetos entre os fiéis repreendidos por ele e insatisfeitos com o rigor com que conduzira a comunidade religiosa, e sua vida poderia até estar ameaçada caso insistisse no retorno a Jequitinhonha e Joaíma. Frei Samuel Tetteroo assumiu, em 1917, a Paróquia de São João do Vigia, na atual cidade de Almenara, morrendo em 1934 aos cinquenta e nove anos.




O Distrito de Felisburgo foi criado pela Lei estadual nº 843, de 07 de setembro de 1923, criado com terras desmembrada do distrito de Joaíma e subordinado ao município de Jequitinhonha. Pela Lei Estadual nº 336 de 27 de dezembro de 1948, o Distrito de Felisburgo passa a pertencer ao recém emancipado Município de Joaíma, mas continuou subordinado à coordenação religiosa da Paróquia de São Miguel de Jequitinhonha.
Com a partida do Frei Samuel Tetteroo, os projetos para a nova igreja foram esquecidos e somente por volta de 1940 a comunidade, talvez motivada pela morte do Frei Samuel Tetteroo pouco tempo antes, começaram a construção do novo templo em sua homenagem. Foram quatorze anos de construção, até ser inaugurada em 1954. O terreno para a construção da Igreja foi doado pelo casal de moradores Miguel Pereira da Rocha e Alice Lacerda Pereira. Com a morte dos doadores, seu filho e herdeiro Manoel Moacyr Pereira transferiu definitivamente a posse do lote a Diocese de Araçuai, segundo documento lavrado no cartório em 27 de junho de 1961. Durante todos esses anos, a obra teve muitos operário e mestres de obras que foram responsáveis pela construção de uma parte da obra. O primeiro que se tem notícia foi um mestre português chamado de Manoel Belo Português que iniciou a construção até deixa-la alta faltando os vãos de portas e janelas. Belo havia terminado a obra da Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus, na cidade de Joaíma e foi encarregado da nova tarefa de erguer a nova igreja em Felisburgo. Em seguida, com a partida do português Belo, chegou um mestre chamado Alzer, não se sabe sua origem, mas trabalhou na construção e a deixou bastante adiantada. E por último, e talvez o mais lembrado, foi o pedreiro nortista José Vicente Cachoeira quem finalizou a construção.


A comunidade já aflita com a demora prolongada da construção resolveu organizar-se e formou-se uma comissão para que tomasse a frente da obra, fizesse campanhas para arrecadar fundos e também administrar a construção. A comissão foi formada tendo como presidente o Dr. Oscar Cardoso da Silva; o tesoureiro foi Sebastião Ivo de Almeida e o secretário Jarbas Morais Costa. Ainda completava o grupo D. Euplínia Magalhães Barbosa e D. Sinflora Rodrigues Pereira. Há uma placa de pedra dentro da Igreja datada de dezembro de 1956 onde estão gravados os agradecimentos da comissão a todos que contribuíram de alguma forma para a realização da obra.

Inicialmente, quando do começo da construção do templo, se imaginava que o mesmo seria para abrigar o Santo Padroeiro São Sebastião cuja Capela de 1902 ficava no terreno ao lado quase em frente à obra. Não se sabe ao certo o que aconteceu para que fosse mudado o nome da Igreja para Nossa Senhora do Rosário que, curiosamente, é considerada a Mães dos Homens Negros; No Brasil a devoção ao Santo Rosário foi trazida pelos missionários da colônia e logo se espalhou, principalmente entre os pretos escravos que nele encontravam as orações mais simples e populares: o Pai-Nosso e a Ave-Maria. Eles usavam o Rosário pendurado ao pescoço e depois dos trabalhos do dia reuniam-se em torno de um “tirador de reza” e ouviam-se, então, no interior das senzalas, o sussurrar das preces dos cativos. Alguns historiadores afirmam que os escravos de procedência Banto, principalmente os de Angola e Congo, assim agiram porque a senhora do Rosário já era sua padroeira na África, cujo culto para lá fora levado pelos primeiros missionários que acompanharam a colônia portuguesa. Hoje, no Brasil, existem mais de cem paróquias dedicadas a ela, como a mais antiga que fica na cidade de Recife em Pernambuco.

























  

 
Não se sabe de nenhuma relação da escolha da Santa do Rosário para dar nome a Igreja e as irmandades negras ou quilombos, concluiu-se que foi por pura devoção e isso pode ser comprovado com o Oratório construído para a Santa anteriormente por volta de 1910. Moradores mais antigos relataram sobre a prepotência dos mais abastados e dos coronéis que faziam o que queriam e como achavam que deviam. Contaram ainda, que já existia a Capela de São Sebastião, a comissão achou por bem homenagear Nossa Senhora do Rosário com a nova Igreja. Houve que não gostasse e achasse um absurdo o Distrito ter como Padroeiro São Sebastião e destinar a igreja principal ao outro Santo.  O Sr. Sebastião Cacique, um dos opositores da ideia, logo providenciou uma imagem do Santo Padroeiro e colocou também no mesmo altar, ao lado da Nossa Senhora do Rosário, para que os dois fossem padroeiro da mesma Igreja. Com a urbanização da Avenida Brasil, na década de 1970, as praças foram reformadas e ganharam novo paisagismo com a plantação de palmeiras imperiais ao longo de toda a via e como consequência dessa modernização a Capela de São Sebastião foi demolida e deu lugar a uma Praça com seu nome.





























Com a emancipação do Município de Felisburgo em 1963, a Igreja de Nossa Senhora dos Rosário continuou subordinada à Paróquia de Nosso Senhor Bom Jesus de Joaíma. Somente com a criação da Diocese de Almenara em 28 de março de 1981 pela bula Quodniam omnis, do Papa João Paulo II, desmembrando-a das Dioceses de Araçuaí e Teófilo Otoni que foi criada a Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Felisburgo 

A partir da década de 1980, com as renovações católicas, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário sofreu várias intervenções físicas. As novas demandas pastorais e as modernas organizações internas dos templos foram modificando os espaços internos das igrejas. A Igreja do Rosário foi inicialmente construída com forte apelo ao divino e ao dramático com seus vitrais altos e interior de pé direito elevado. O seu interior que foi em parte descaracterizado, quando da intervenção de 1978, perdeu muito da dramaticidade do espírito medieval que era e é ainda hoje característico de muitos interiores de igrejas católicas. As missas eram celebradas no altar mor e de costas para os fieis. Foi feita uma elevação do piso para que a mesa de celebração fosse colocada no centro da nave e todos assistissem à celebração. Nessa reforma, muitos adornos e o próprio altar foram descaracterizados e até retirados da igreja. Posteriormente, na década de 1990, o forro original foi substituído por um de PVC e as platibandas laterais foram demolidas para que aparecessem os beirais do telhado de duas águas e evitassem assim as infiltrações causadas pelas calhas.



O maior destaque, porém, da edificação está no seu revestimento externo. É de se impressionar milhares e milhares de caquinhos de vidro que eram coletados pela população e doados para serem inseridos na argamassa do reboco da igreja. Muitas garrafas de vidro foram trituradas para que pudessem compor a fachada que depois refletia as luzes do sol e da lua. Ainda hoje alguns moradores que ajudaram na construção da igreja lembram de como eles juntavam os cacos de vidro coloridos e as garrafas que deram o acabamento exterior do templo religioso.

Fonte: Inventário do IEPHA 2017

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